Outro dia estava comentando com alguns amigos sobre as utilidades do sorriso multiuso. Todo mundo sabe qual é – aquela leve curvadinha de boca no melhor estilo Bill Murray, que você pode usar nas mais diversas situações:
A: Desculpe, mas infelizmente você não tem o perfil que estamos procurando.
B: [Responde com o sorriso multiuso querendo dizer “Não faz mal, nem queria trabalhar nessa espelunca mesmo...”]
A: Feliz aniversário! Tá aqui seu presente.
B: [Abre o pacote]
A: Gostou? Achei a sua cara!
B: [Faz o sorriso multiuso que, nesse caso, quer dizer “Você acha que tenho cara de merda?”]
No mesmo dia, pude provar minha teoria sobre as multiutilizações do sorriso em uma nova ocasião: conversinhas de ônibus.
Situação: B decidiu não ligar seu mp3 player porque já ia descer do ônibus, mas sentou na janela para ficar apreciando a bela vista do Bairro do Limão. Eis que se senta ao seu lado um certo moço A, com sobrancelhas de taturana e camiseta do Palmeiras. É importante notar que B estava usando vestido preto, cinto vermelho e meia-calça de bolinhas, porque B tem muito bom gosto.
A: Desculpa perguntar, mas, qual é o seu estilo?
B: Ãhn?
A: Qual é o seu estilo? Que música você curte?
B: É... [tentando pensar em que resposta dar para terminar aquela conversa] Rock.
A: Você é emo?
B: Não!
A: Mas que tipo de rock você curte? Pesado ou romântico?
B: [Como explicar???] Pesado.
A: Ah, da hora. Tem uns que não dá nem pra entender né? Mas, tipo, Metallica é mó da hora.
B: [Continua olhando pela janela]
A: Você não curte?
B: Não.
A: Então você curte o que?
B: [Eu devia dizer que curto a banda do meu namorado campeão de luta livre] Ramones.
A: Ramones? Da hora. Red Hot Chilli Peppers que é da hora também. Meu pai que gostava.
B: [Olha para as unhas]
A: Menina com esse seu estilo fica mó linda. Pena que a maioria é metida.
B: [Faz o sorriso multiuso]
A: Você não gosta muito de conversar com estranhos, né?
B: Não muito.
A: Percebi.
E fim da conversa.
Vejam como o sorriso multiuso opera milagres. Quando parecia não haver mais saída, você vira pro sujeito, mantém sua boca fechada e levemente curvada, mentaliza o que quer dizer e POFT, o sujeito entende a mensagem: “Não quero conversar com você, me deixe em paz”.
Desde então decidi adotar o sorriso multiuso de vez. Já é quase uma filosofia de vida, e ele está praticamente me transformando em uma mestra zen: não me estresso, não preciso me preocupar com palavras gentis para dizer o que penso sem magoar os outros. O sorriso multiuso simplesmente faz todo o trabalho por mim.
Tava pensando até em montar a Congregação dos Sorrinistas, mas é melhor manter o segredo do sorriso multiuso bem guardado. O mundo já é cheio de pilantras, imagine se esse segredo cai em mãos maldosas. Não, vamos esquecer esse sorriso e buscar outra saída para situações embaraçosas.
"Ah, peraí, meu celular tá tocando. Alô?"
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5 de julho de 2010
18 de agosto de 2009
A da Vida de Merda - parte 1
Conhece aquele site, o Vida de Merda? Eu passo horas lendo e dando risada, todos os dias, do povo coitado que coloca suas histórias lá. Mas parece que Deus me castigou e transformou a minha vida em uma merda.
Tudo começou com a volta às aulas. Enfiei todo o material necessário em minha bolsa gigante (caderno, estojo, netbook pra fazer hora na biblioteca da FFLCH e o resto das coisas de sempre – marmitão, nécessaires, carteira, escova de cabelo, óculos escuros, etc, etc...). Ou seja: a pobre bolsa ficou gordona e a pobre de mim ficou com as costas doendo porque pegou dois [micro]ônibus lotados sem nenhuma alma abençoada pra segurar a bolsa, só porque o tamanho dela era assustador.
Tive um dia normal no trabalho, saindo às 17h em ponto porque não sabia exatamente onde pegar o ônibus pra ir até a USP. Acabei pegando sem grandes dificuldades, porque ele sai exatamente do terminal da Lapa. Fui sentada, mas passando mal por causa do calor e das poucas horas de sono na noite anterior (minha pressão devia estar baixa e eu estava com dor de cabeça. Mas não, não era gripe suína, pode continuar lendo o texto sem risco de contaminação). O trânsito estava ruim nas imediações da Marginal Pinheiros e Rua Alvarenga mas, vá lá, eu prometi ser boa aluna esse semestre, resisti à tentação de descer e pegar outro ônibus pra casa.
Cheguei na FFLCH às 18h e, pasmem, já tinha muita gente por lá. Fui até a lanchonete, comprei uns trequinhos, os engoli e fui pra biblioteca gastar o que o ICMS de vocês pagou em forma de banda larga. Fiquei lá à toa até as 19h15, porque a aula começava às 19h30. Fui até a sala marcada calmamente e avistei de longe um papel grudado na porta. Mas sou meio cega, tive que chegar mais perto pra conseguir ler:
“A professora Maria Clara Paixão não dará aula hoje, 17/08, por motivo de doença. Favor pegar o programa na secretaria do DLCV e fazer sua inscrição no Moodle.”
“Qual é mesmo o nome da minha professora de Filologia? Maria Clara? Gente, é Maria Clara!!”

Pra resumir a tragédia:
• Eu tinha feito todo o sacrifício do mundo, carregado praticamente o mundo nas costas o dia inteiro;
• Passado mal dentro de um ônibus baforento;
• Pegado trânsito;
• Atravessado toda a porcaria do gramado “marijuanento” da FFLCH;
• Comido aquele salgado sem sal na lanchonete...
...pra absolutamente nada.
Que a professora estava doente pra mim estava claro. Eu só não entendi como alguém que conhece o Moodle não conhece E-MAIL! Eu ainda tinha fé que o tal e-mail acadêmico serviria pra alguma coisa algum dia.
Meio desolada, fui até a secretaria do DLCV pegar o programa, enquanto decidia se ficava ou não até as 21h para ter minha segunda aula. “Ah, the hell com a segunda aula, vou pra casa mesmo.” Chegando na secretaria, falei com a... secretária?
- Oi, o programa da Maria Clara...
[Ainda tava tentando me acostumar com aquele nome, me matriculei com ela há um século, quando ainda havia greve e a gripe suína era meramente estrangeira.]
- Ah sim, tá aqui. Não se esquece de matricular no tal do Moo... Moodle.
[Ironia do destino: viro designer instrucional e perco uma aula pelo Moodle.]
- Tá bom. Ela vai ficar sem dar aula um tempo?
[Já tava cogitando a possibilidade de ficar sem ir pra USP nas outras segundas-feiras. Vai que ela tinha pego a gripe...]
- Não, segunda que vem ela já está aqui!
- Ah.
[Cara de decepção]
Resolvi ligar pra casa e ver se alguma alma familiar caridosa podia ir me buscar. Eu moro perto da USP, mas aquilo lá é um buraco. Preciso pegar dois ônibus pra chegar em casa e o segundo é o inferno com 4 rodas. Só consegui falar com o meu pai:
- Ah, eu tô aqui esperando sua mãe, ela está em reunião, não sei que horas vai sair.
- Oba! Vou pra casa de ônibus!
- Me liga quando estiver chegando, a gente pega você no caminho.
- Tá.
Sorte que os ônibus da USP, naquele horário, não são tão cheios, e que o primeiro passou rápido. Sorte também que eu consegui, inexplicavelmente, por causa de um buraco de minhoca, talvez, pegar o segundo ônibus menos cheio. Mesmo assim, demorei meia hora pra percorrer uns 6km. É o milagre do transporte público de São Paulo.
Pra resumir a tragédia II:
• Cheguei em casa às 20h, quando poderia ter chegado às 18h se não tivesse ido completamente à toa pra FFhellCH;
• Comi porcaria quando poderia ter comido comidinha caseira vegetariana;
• Estava com a cabeça estourando e ainda tinha um sapato pra trocar no shopping e um presente de no máximo 100 reais pra comprar mim mesma (acreditem, isso não é tarefa fácil).
Fui cumprir essas duas tarefas certa de que nada mais podia dar errado. E não deu mesmo, encontrei um sapato igual com meu número e uma mochila boazinha pra substituir a bolsa gorda. Era mais cara, mas a essa altura eu gastaria meu salário inteiro pra resolver isso.
Enfim, cheguei em casa feliz por pelo menos uma coisa não ter afundado naquele dia de trevas. Mal sabia o que me aguardava no dia seguinte...
Tudo começou com a volta às aulas. Enfiei todo o material necessário em minha bolsa gigante (caderno, estojo, netbook pra fazer hora na biblioteca da FFLCH e o resto das coisas de sempre – marmitão, nécessaires, carteira, escova de cabelo, óculos escuros, etc, etc...). Ou seja: a pobre bolsa ficou gordona e a pobre de mim ficou com as costas doendo porque pegou dois [micro]ônibus lotados sem nenhuma alma abençoada pra segurar a bolsa, só porque o tamanho dela era assustador.
Tive um dia normal no trabalho, saindo às 17h em ponto porque não sabia exatamente onde pegar o ônibus pra ir até a USP. Acabei pegando sem grandes dificuldades, porque ele sai exatamente do terminal da Lapa. Fui sentada, mas passando mal por causa do calor e das poucas horas de sono na noite anterior (minha pressão devia estar baixa e eu estava com dor de cabeça. Mas não, não era gripe suína, pode continuar lendo o texto sem risco de contaminação). O trânsito estava ruim nas imediações da Marginal Pinheiros e Rua Alvarenga mas, vá lá, eu prometi ser boa aluna esse semestre, resisti à tentação de descer e pegar outro ônibus pra casa.
Cheguei na FFLCH às 18h e, pasmem, já tinha muita gente por lá. Fui até a lanchonete, comprei uns trequinhos, os engoli e fui pra biblioteca gastar o que o ICMS de vocês pagou em forma de banda larga. Fiquei lá à toa até as 19h15, porque a aula começava às 19h30. Fui até a sala marcada calmamente e avistei de longe um papel grudado na porta. Mas sou meio cega, tive que chegar mais perto pra conseguir ler:
“A professora Maria Clara Paixão não dará aula hoje, 17/08, por motivo de doença. Favor pegar o programa na secretaria do DLCV e fazer sua inscrição no Moodle.”
“Qual é mesmo o nome da minha professora de Filologia? Maria Clara? Gente, é Maria Clara!!”
Pra resumir a tragédia:
• Eu tinha feito todo o sacrifício do mundo, carregado praticamente o mundo nas costas o dia inteiro;
• Passado mal dentro de um ônibus baforento;
• Pegado trânsito;
• Atravessado toda a porcaria do gramado “marijuanento” da FFLCH;
• Comido aquele salgado sem sal na lanchonete...
...pra absolutamente nada.
Que a professora estava doente pra mim estava claro. Eu só não entendi como alguém que conhece o Moodle não conhece E-MAIL! Eu ainda tinha fé que o tal e-mail acadêmico serviria pra alguma coisa algum dia.
Meio desolada, fui até a secretaria do DLCV pegar o programa, enquanto decidia se ficava ou não até as 21h para ter minha segunda aula. “Ah, the hell com a segunda aula, vou pra casa mesmo.” Chegando na secretaria, falei com a... secretária?
- Oi, o programa da Maria Clara...
[Ainda tava tentando me acostumar com aquele nome, me matriculei com ela há um século, quando ainda havia greve e a gripe suína era meramente estrangeira.]
- Ah sim, tá aqui. Não se esquece de matricular no tal do Moo... Moodle.
[Ironia do destino: viro designer instrucional e perco uma aula pelo Moodle.]
- Tá bom. Ela vai ficar sem dar aula um tempo?
[Já tava cogitando a possibilidade de ficar sem ir pra USP nas outras segundas-feiras. Vai que ela tinha pego a gripe...]
- Não, segunda que vem ela já está aqui!
- Ah.
[Cara de decepção]
Resolvi ligar pra casa e ver se alguma alma familiar caridosa podia ir me buscar. Eu moro perto da USP, mas aquilo lá é um buraco. Preciso pegar dois ônibus pra chegar em casa e o segundo é o inferno com 4 rodas. Só consegui falar com o meu pai:
- Ah, eu tô aqui esperando sua mãe, ela está em reunião, não sei que horas vai sair.
- Oba! Vou pra casa de ônibus!
- Me liga quando estiver chegando, a gente pega você no caminho.
- Tá.
Sorte que os ônibus da USP, naquele horário, não são tão cheios, e que o primeiro passou rápido. Sorte também que eu consegui, inexplicavelmente, por causa de um buraco de minhoca, talvez, pegar o segundo ônibus menos cheio. Mesmo assim, demorei meia hora pra percorrer uns 6km. É o milagre do transporte público de São Paulo.
Pra resumir a tragédia II:• Cheguei em casa às 20h, quando poderia ter chegado às 18h se não tivesse ido completamente à toa pra FFhellCH;
• Comi porcaria quando poderia ter comido comidinha caseira vegetariana;
• Estava com a cabeça estourando e ainda tinha um sapato pra trocar no shopping e um presente de no máximo 100 reais pra comprar mim mesma (acreditem, isso não é tarefa fácil).
Fui cumprir essas duas tarefas certa de que nada mais podia dar errado. E não deu mesmo, encontrei um sapato igual com meu número e uma mochila boazinha pra substituir a bolsa gorda. Era mais cara, mas a essa altura eu gastaria meu salário inteiro pra resolver isso.
Enfim, cheguei em casa feliz por pelo menos uma coisa não ter afundado naquele dia de trevas. Mal sabia o que me aguardava no dia seguinte...
24 de junho de 2009
A do ônibus

Uma manhã qualquer, eu lá esperando meu busão Sto. Amaro que passa sempre, pontualmente, às 7h10. Deu 7h15 e nada. 7h20, idem. 7h25 e o ponto lotado - nem sinal do maldito. 7h30 ele vem cambaleando, com aquele balançar de bêbado depois da vigézima pinga e... adivinhem só! Isso mesmo: cheio. Lotado. Vazando.
Gente pendurada em tudo que era janela, aquele cheirinho agradável de trabalhadores da Zona Sul e uma baixinha salta na minha frente. [Ok, eu não sou a pessoa mais alta do mundo, mas ela batia no meu ombro, então eu posso chamá-la de baixinha sim.] Ela era daquelas atarracadinhas - 1,40 m e 70 kg - de coque preso com aquela presilha de laço preto breguííííssima e saião até o joelho. Pode reparar, todo ônibus lotado tem uma dessas. E eu fui a bola da vez. Quase literalmente, porque a mulher resolveu me chutar pra passar e entrar no ônibus antes de mim. Era aquelas horas em que você pensa: vai, tanto faz, já tô atrasada mesmo...
Porém, além de empurrar, ela também resmungava.
- Preciso passar e não dá. Inferno. Demorou pra vir e agora vem assim...
Ah, qualé! O Butantã-USP às 18h30h na esquina da Faria Lima com a Rebouças é cem, mil vezes pior! Eu acho engraçado como nessas horas as pessoas acham que vai adiantar alguma coisa ter pressa. Nem mosquito da dengue cabia ali naquele ônibus, quanto mais a Michelin versão evangélica.
- Aqui já deu, Seu Antônio! - berrou a cobradora lá do fundo. Fundo? Sim, quando você tá do lado daquele adesivo que diz "Não apóie nem suba no capô", com umas 50 pessoas na sua frente, a cobradora parece estar reeealmente no fundo.
E aí parou de entrar gente. Pelo menos por aluguns pontos. Logo passou o Shopping Butantã, saíram uns 10, entraram uns 20 e assim foi seguindo. Eu consegui me arranjar em algum cantinho espremida, uma alma santa segurou gentilmente minha bolsa (que a essa altura já era quase uma sacola do Carrefour) e a mini Michelin se foi em paz.
Quando sosseguei meus nervos, olhei pela janela e estava lá, brilhando de tão vazio. Sim, era outro Sto. Amaro, que tinha passado logo depois do que eu estava.
Claro que eu fiquei à beira de um ataque mas, depois de todo o sufoco, o que mais eu podia fazer? Já estava perto do shopping Morumbi, logo os vendedores de lojas e operadores de telemarketing da Vivo, que fica logo em frente, iam descer em massa e o ônibus ficaria brilhante como o outro, livre pra chegar na Alexandre Dumas e ahazzar. Por isso, segui a máxima da nossa querida amiga Marta Suplicy, aproveitei que a alma santa estava descendo e me cedendo seu lugar e sentei por alguns pontos. Afinal, o dia só estava começando.
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