Mostrando postagens com marcador comemorativo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comemorativo. Mostrar todas as postagens

7 de agosto de 2011

A da formatura

Chegando ao fim de um curso que eu resisti em fazer por algum tempo, me lembrei de um professor que tive. Em 2005, ainda no colégio, eu faltei algumas sextas-feiras para assistir com meu namorado às aulas de Literatura do famoso FT, Fernando Teixeira, no Curso Objetivo da Av. Paulista. Eu queria ter o gostinho de ter aula com aquele fenômeno porque estava convencida de que, naquele ano, eu iria entrar em Jornalismo e não precisaria fazer cursinho, então tinha que aproveitar para ter uma boa aula de literatura algum dia.
"Bom dia, seus mal educados!"
O saudoso FT, no entanto, acabou sendo meu professor em 2006, porque, apesar da enorme força de vontade, não passei no vestibular. Junto com o trauma de não entrar em um curso concorrido e de poucas vagas, veio a explosão: “Antes tivesse prestado Letras!!” Era só da boca pra fora, é claro. O que é que alguém faz com um diploma de Letras? Dá aula?
Depois de algumas aulas com o FT, acabei me convencendo que não era assim tão má ideia prestar Letras, pelo menos na Fuvest. Nas outras faculdades, eu ainda iria prestar Jornalismo. E então, os meses foram passando, a paixão pela literatura foi crescendo... até que me encontrei nas aulas sobre Machado de Assis – ainda, porém, sem querer admitir que minha futura profissão seria professora - que destino assustador! E se eu fizer Letras primeiro e depois fizer Jornalismo?

Quando subi as escadas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) pela primeira vez, em 2007, o FT me veio à cabeça:
“Seu pai te promete um carro se você passar na USP. Você, todo orgulhoso chega para ele: ‘Pai, passei, me dá um carro?’ Seu pai responde: ‘Mas... Letras??? ’”
Eu não sabia bem o que estava fazendo ali. E nunca soube. Meu curso tem uma nota de corte baixa, recebe 850 novos alunos todo ano, o prédio é um dos mais decrépitos da USP, enfrentei umas 3 greves nos últimos 4 anos – incluindo a famigerada invasão à reitoria e a terrível visita da PM ao campus – e muitas, muitas aulas interrompidas para “um recado” do pessoal filiado ao PSTU, ao PCO, a não sei que grupo. Não há grandes motivos para orgulho a não ser o fato de que, apesar de tudo, é USP. Mas parece que eu não era mesmo a pessoa certa para fazer Jornalismo. As línguas e literaturas fazem parte de mim, sempre fizeram. Talvez um outro curso, uma carreira diferente, me faria bastante infeliz.
Tive muitos professores de literatura na FFLCH. Alguns picaretas, alguns meia-boca, outros que eram verdadeiras atrações que lotavam as maiores salas de aula da faculdade, como acontecia com o FT no Objetivo. Mas nem o melhor professor da FFLCH dá aula com tanta vontade quanto o professor Fernando Teixeira deu. Ele que, com câncer em estágio avançado e fortes dores, morreu no dia seguinte àquele em que deu 18 horas de aula sem parar – porque queria, não porque precisava. Ele, que não aceitava uma licença médica para se tratar. Ele que, formado em Direito, sabia versos e mais versos dos Lusíadas, passagens e mais passagens de Brás Cubas de cor mesmo sendo totalmente autodidata em literatura.
Hoje tenho um bom emprego, em uma boa empresa. Trabalho com Educação, mas não sou professora, ao contrário do que o senso comum diz sobre quem faz Letras. Não tenho o mesmo salário nem o mesmo prestígio de quem fez Medicina, Direito ou Engenharia, mas estou feliz com o rumo que minha vida tomou. E agradeço ao FT por ter me mostrado esse caminho.

Digo com o orgulho de quem esperou por isso a vida inteira: me formei na USP.

24 de janeiro de 2010

A de São Paulo

Em São Paulo, você certamente ouve pelo menos uma vez ao dia pessoas reclamando do trânsito e fazendo planos de mudança para o interior, exterior, ou qualquer outro lugar em que tenham uma vida mais tranquila. Pelo menos 90% delas não cumprem nada.

Difícil explicar porque todo esse caos é tão necessário em nossas vidas. Não há cidades melhores para morar no país? Todo mundo fala do bom planejamento de Curitiba, da qualidade de vida do Rio... por que ninguém vai pra essas cidades e deixa São Paulo um pouco mais vazia, com menos trânsito e menos lotação no transporte público, mais vagas de emprego e menos sujeira?

Porque todo mundo precisa dos salários mais altos pagos em São Paulo - e das empresas que estão aqui pagando esses salários - que, pior de tudo, nem são tão grande coisa assim. E porque, por mais estranho que possa parecer, temos uma verdadeira obsessão por essa cidade bizarra, que convive com Morumbi e Itaquera de modo tão estranho.

Admita, você gosta de contemplar a Av. Paulista de vez em quando enquanto pensa "Olha só, nossa Wall Street, que bonita...", entre uma buzina e outra. Ou de olhar pro Ibirapuera e pensar que ele até que é parecido com o Central Park, que a Ponte Estaiada é a nossa Golden Gate - e o fato de o Pinheiros River não ser a San Francisco Bay é mero detalhe.

São Paulo tem esse quê de primeiro mundo dentro do Brasil, um pedaço que não se encaixa no resto, de tão grande e caótico, esbanjando beleza e pobreza entre tão poucos quilômetros. Um lugar tão miscigenado quanto algumas cidades canadenses, mas que não teve nenhuma estrutura e planejamento para receber todo mundo, já que a ideia era "dar uma esbranquiçada" por aqui com sangue alemão. E aí a gente fica assim, vendo favela e Alphavile (que não é São Paulo, mas é como se fosse), um do lado do outro.

Não vamos embora. Temos orgulho do sangue paulista-italiano-alemão-espanhol-português-árabe. Gostamos de ir pra nossa China Town aos domingos, pra nossa Little Italy nas quintas-feiras... Gostamos da camada de poluição que forma o céu alaranjado do fim de tarde seco, das voltinhas no shopping confortável que nos abriga durante as enchentes...

Não é que gostamos do caos. Mas também não podemos viver sem ele.

É isso aí, São Paulo, 456 anos, nenhuma perspectiva de melhora, e continuamos aí com você. Não mude, viu?