Toda a rapidez e dinamicidade de São Paulo fica ainda mais evidente em situações adversas. O caos tem hora e som para começar: uma campainha, seguida de um anúncio:
- Atenção senhores usuários: devido a uma falha técnica, os trens estão circulando com velocidade reduzida e com maior tempo de parada.
Muito antes do anúncio, a lotação do lugar já evidenciava o problema. A estação República da Linha Amarela, normalmente tranquila mesmo no horário de pico, estava abarrotada de gente. Alguns, já cansados de esperar, estavam sentados nos bancos perto da parede. Muitos, no entanto, ainda tentavam entender o que estava acontecendo quando o anúncio foi repetido:
- Atenção senhores usuários: devido a uma falha técnica, os trens estão circulando... [voz ficou muito baixa]
- Os trens o quê? - alguém gritou.
- Só ouvi até "os trens estão circulando" - alguém respondeu. Porque nessas horas de desespero todo mundo se une.
E como! Por volta de 10 minutos depois, chegou o trem. Todo mundo unido lá dentro. E todo mundo tinha vindo de uma só estação, a Luz. Aí, todo mundo resolveu se unir pra tentar entrar no trem. Teve até quem entrasse de costas, apoiando-se às barras de ferro pra empurrar toda aquela união com mais força. Eu não consegui entrar, é claro. Então fiquei ali, olhando a multidão em volta. Muita gente tirando foto, muita gente com pressa, cansada... E o pior é que, se em situações normais as pessoas já estão com pressa, em situações de "falha técnica" elas ficam em pânico absoluto. E isso as faz agir de modo muito, muito estranho.
Algum tempo de espera depois, passou outro trem, igualmente lotado. Eu já tinha desistido de entrar nesse também quando três mulheres resolveram sair - não tava fácil ficar naquele aperto com o trem parado há um tempão. Então, como num piscar de olhos, entrei. Alguém resmungou:
- Aí ó, saíram três e entraram dez.
Paciência. Todo mundo queria chegar em casa. O trem fechou. Um tempinho além do normal passou com as portas fechadas e o trem parado. Silêncio. Até que ele andou.
- AEEEEEEEEE!! - gritou um grupo.
E como a alegria dos menos favorecidos dura extremamente pouco, chegou a estação Paulista. Parecia dia de final de Copa do Mundo, em uma sexta-feira à noite, com distribuição gratuita de Itaipava pra quem chegasse primeiro - só que isso valia tanto pra quem queria entrar quanto pra quem queria sair do trem, então imagine o choque de interesses em tão pequeno espaço. E eu ali no meio, tentando não ser arrastada pra fora.
Ao mesmo tempo em que tudo isso acontecia extremamente rápido, o mesmo grupo do "aeee" gritava "Olha o rapa, olha o rapa, olha o rapa!!!", o que contribuía para que a cena tivesse um quê de cômica - embora, naquele momento, eu não estivesse vendo nada de engraçado.
Em menos de cinco segundos, quem precisava sair, saiu, e quem precisava entrar, entrou. Quer dizer, quem conseguiu entrar. As portas se fecharam e em pouco estávamos em uma nova estação: Faria Lima. Caos reinando novamente com o mesmo conflito de interesses: sai que eu quero sair, dá licença que eu quero entrar. Os funcionários da Via Quatro começaram a anunciar, repetidamente:
- Senhores usuários, favor não segurar as portas.
E ninguém ouvia. Dá licença que eu quero entrar. Anunciaram mais uma vez:
- Atenção senhores usuários, a situação está sendo normalizada aos poucos, mas pedimos por gentileza que não segurem as portas.
Lalaalala, dá licença que eu quero entrar, até que ouviu-se uma voz desesperada no anúncio:
- Senhores usuários, favor NÃO SEGURAR AS PORTAS!!!
- Ihhh, ficou nervosinha... - respondeu um membro do grupo do "aeee".
Silêncio. As portas se fecharam. O caos estava finalmente controlado. Pouco depois, chegávamos à estação de interesse de 99% da multidão que se aglomerava aos pisões e empurrões naquele trem que, glória a Deus, tinha ar condicionado: Pinheiros.
- E agora, como faz pra descer?? - desesperava-se uma senhora ao meu lado. A essa a altura eu já estava do outro lado do trem.
Mas eles saíram. Foi assustador. Lembrei daquele programa do Sérgio Malandro, "A Porta dos Desesperados". Só que ao invés de um monstro correndo atrás da criancinha, não tinha nada; era só a porta se abrindo. A liberdade. O ar. A paz.
Duas moças entraram assustadas, como se não soubessem o que se passava, segurando afoitamente suas mochilas. Consegui sentar. Tinha só mais uma estação pela frente, mas pouco importava. O cansaço daquela meia hora de stress foi maior do que o do dia todo. Que situação...
Cheguei à conclusão de que São Paulo me assusta demais. As pessoas ficam em pânico com uma velocidade diretamente proporcional à velocidade da própria cidade, e o pânico só vai aumentando conforme elas ficam sem informações, sem comida, água, lugar para sentar, ar. Por fim, elas são libertadas daquele sufoco como uma manada de elefantes que escapou de virar almoço de leões. E fica a sensação de que a qualquer momento, quando menos se esperar, a campainha vai soar novamente.
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24 de novembro de 2011
4 de abril de 2010
A dos bêbados
Não fosse pelo fracasso da humanidade em permitir o uso de substâncias tóxicas, os bêbados poderiam ser extintos da face da terra. Como os dinossauros. Só que os bêbados são pessoas alegres e amorosas, e os dinossauros eram grandes e espaçosos, ninguém gostava deles. Bêbados sempre fazem a felicidade da festa. Como palhacinhos amestrados, que dançam e pulam para a diversão daqueles que ainda não estão bêbados. Até que...
- Nossa, tô bêbada pra &%$*!! Mas eu acho que Hitler fez um traba...trabalho mal feito. Ele não exter...terminou as coisas direito.
Porque os bêbados sempre se sentem no direito de dizer e fazer o que bem querem. Ainda mais se o bêbado em questão tiver razões psicológicas para se embebedar. E quando digo razões psicológicas, quero dizer razões amorosas, ou simplesmente amorososo-cornísticas.
- Bebo MEEEESSSSMO, sabe por quê? Porque sou COOOORRRR-NA, ninguém me QUEEEER!!! Se eu beber pelo menos fico mais bonita.
Mas não, não podemos reclamar. Nossa sociedade, mesmo com toda a sua superioridade perante às demais, permitiu que substâncias como o álcool, só para começar com as lícitas, fossem utilizadas. O que iremos argumentar, então? Vamos dizer que o álcool só pode ser ingerido por pessoas responsáveis, cujo poder intelectual seja superior à vontade de passar para situações ridículas.
- Ô DOMENIIIIICHE! DOMENIIIICHE!! Eu sei o que você fez na Páscoa passada, DOMENIIIICHE! Vou contar tudo pro seu namorado, DOMENIIIICHE!
O problema é que mesmo que você seja uma pessoa responsável e com poder intelectual superior à sua vontade de passar por situações ridículas, vem um bêbado e faz você passar pelo ridículo de qualquer forma. Aliás, quanto mais discreto voce quiser ser do lado de um bêbado, mais ele irá te perturbar.
Fazer o que, então? Mandamos prender? Mas eles não estão cometendo nenhum crime. Bebem o que está sendo vendido aí, livremente. E você pode querer usar as mesmas substâncias que o bêbado, com mais responsalidade, sem ser necessariamente um mal à sociedade.
Colocar o bêbado em extinção? Mas eles se multiplicam a cada bebedeira! Reproduzem-se com fertilidade sempre colocando a própria bebida como desculpa para seus atos, adúlteros ou não. Além do mais, uma caça aos bêbados hoje poderia gerar uma comemoração tão grande amanhã que seria necessário repetir a caçada várias e várias vezes, até que o completo extermínio da raça humana fosse atingido.
Então não nos resta outra alternativa: fujamos da festa e deixemos os bêbados para trás enquanto há tempo. Inconvenientes como gritos de fúria podem acontecer, mas é para o bem de todos. No final, o que importa é que eles sumam de nossas vistas, com seus hálitos desagradáveis e vozes esganiçadas. Vamos deixá-los soltos, mas sozinhos, condenados à prisão perpétua de sua solidão. Um brinde aos bêbados incovenientes que descansam em paz, longe de nós - saúde.
- Nossa, tô bêbada pra &%$*!! Mas eu acho que Hitler fez um traba...trabalho mal feito. Ele não exter...terminou as coisas direito.
Porque os bêbados sempre se sentem no direito de dizer e fazer o que bem querem. Ainda mais se o bêbado em questão tiver razões psicológicas para se embebedar. E quando digo razões psicológicas, quero dizer razões amorosas, ou simplesmente amorososo-cornísticas.
- Bebo MEEEESSSSMO, sabe por quê? Porque sou COOOORRRR-NA, ninguém me QUEEEER!!! Se eu beber pelo menos fico mais bonita.
Mas não, não podemos reclamar. Nossa sociedade, mesmo com toda a sua superioridade perante às demais, permitiu que substâncias como o álcool, só para começar com as lícitas, fossem utilizadas. O que iremos argumentar, então? Vamos dizer que o álcool só pode ser ingerido por pessoas responsáveis, cujo poder intelectual seja superior à vontade de passar para situações ridículas.
- Ô DOMENIIIIICHE! DOMENIIIICHE!! Eu sei o que você fez na Páscoa passada, DOMENIIIICHE! Vou contar tudo pro seu namorado, DOMENIIIICHE!
O problema é que mesmo que você seja uma pessoa responsável e com poder intelectual superior à sua vontade de passar por situações ridículas, vem um bêbado e faz você passar pelo ridículo de qualquer forma. Aliás, quanto mais discreto voce quiser ser do lado de um bêbado, mais ele irá te perturbar.
Fazer o que, então? Mandamos prender? Mas eles não estão cometendo nenhum crime. Bebem o que está sendo vendido aí, livremente. E você pode querer usar as mesmas substâncias que o bêbado, com mais responsalidade, sem ser necessariamente um mal à sociedade.
Colocar o bêbado em extinção? Mas eles se multiplicam a cada bebedeira! Reproduzem-se com fertilidade sempre colocando a própria bebida como desculpa para seus atos, adúlteros ou não. Além do mais, uma caça aos bêbados hoje poderia gerar uma comemoração tão grande amanhã que seria necessário repetir a caçada várias e várias vezes, até que o completo extermínio da raça humana fosse atingido.
Então não nos resta outra alternativa: fujamos da festa e deixemos os bêbados para trás enquanto há tempo. Inconvenientes como gritos de fúria podem acontecer, mas é para o bem de todos. No final, o que importa é que eles sumam de nossas vistas, com seus hálitos desagradáveis e vozes esganiçadas. Vamos deixá-los soltos, mas sozinhos, condenados à prisão perpétua de sua solidão. Um brinde aos bêbados incovenientes que descansam em paz, longe de nós - saúde.
22 de novembro de 2009
A do caso do vestido
Quando Geisy foi escurraçada naquele Carandiru-niban, a defendi de verdade a todos os que achavam que ela tinha merecido. Vieram à minha cabeça aquelas acusações infundadas que fazia-se a mulheres estupradas: "Mas, também, ela provocou, não podia estar vestida daquele jeito..." Li com total compreensão os gringos atônitos, tentando explicar o caso: "Apesar de o Brasil ser conhecido pelas vestimentas escassas, nas cidades em que não há praia as jovens costumam se vestir mais casualmente, com jeans e camiseta". Cheguei a pensar que Geisy era uma espécie de Bettie Page, julgada por conservadores em uma época em que usar pouca roupa era imoral e obsceno, com a diferença de que não estamos mais nessa época e de que sediamos a festa mais nua e obscena do mundo, sem o menor choque.
Por que então o vestido de Geisy foi objeto de tamanho bafafá? Em qualquer balada de São Paulo podemos encontrar pessoas vestidas assim. No Rio, encontramos gente vestida com roupas ainda menores (nem decote o vestido da menina tinha!). Mas, depois da indignação, veio a raiva. Geisy no Casseta e Planeta, Geisy dizendo que leiloará o vestido e, a gota d'água: Geisy posando nua. De vítima, ela passou a palhaça.
Não que eu condene quem posa nua. É uma opção. Uma opção que compra apartamentos luxuosos. O problema é toda a publicidade que se fez em torno disso. Geisy é muito jovem e, aqui entre nós, não é a pessoa com o futuro mais brilhante estudando na Uniban (e deixo bem claro que não quero dizer que quem faz Uniban não tem futuro, mas sim que terá que penar muito mais do quem fez uma faculdade de ponta, e isso é fato). Aproveitar-se de uma situação como a que ela vivenciou, tentando fazer do trauma um caça-níquel, é não só ridículo como tão machista quando as pessoas que a escurraçaram. Antes, ela mostrava o corpo como uma opção de liberdade feminina. Agora, ela mostra para ganhar dinheiro.
É verdade que Geisy ainda não confirmou se vai ou não posar nua. Mas tanto a Playboy quanto a Sexy já declararam que irão procurá-la. É questão de tempo (e dinheiro) até ela aceitar. Enquanto isso, ela fica fora da faculdade, mostrando seu nome nos quatro cantos da TV e da internet.
A dura verdade disso tudo é que, ao invés de mostrar ao país o quanto ainda precisamos progredir em direitos femininos, em educação, e principalmente em respeito ao próximo, ela está usando as mesmas velhas armas de qualquer mulher que começa a receber mais atenção. O que ela não percebeu é que sua vida se transformou em um Big Brother universitário, de um só participante, com o pacote completo pós-saída da casa: Faustão, Paparazzo, Playboy, Programa do Jô, Mais Você, Hebe, Superpop, esquecimento.
5 de outubro de 2009
A da soja com bacon
- Oi, eu queria um Vegetariano, por favor.
- Vegetariano? Ok. Nós temos alguns complementos que você pode adicionar. Vc pode colocar bacon!!!
- Não, não, obrigada. Sou vegetariana.
- Aaah, vc é vegetariana mesmo? De verdade? Nossa, mas você não come nenhum tipo de carne???
- Não.
- Nem frango???
- Não, nem peixe - disse eu, já adiantando a resposta da próxima pergunta.
- Nossa, mas há quanto tempo???
- 5 anos.
- Nossa, 5 anos??? Que coisa!! Mas você emagreceu quando parou de comer carne??? - Não... [E o que foi essa pergunta? Por acaso estou magra demais?]
- Nossa, 5 anos... mas, assim, por que? O que te levou a parar???
- Não gosto de carne – imaginando que a explicação completa traria muito mais problema.
- Sério?? Nossa, eu não conseguiria... mas te admiro, viu!!! Nossa, mas não consigo entender, como assim vc parou? Por queee???
- É filosofia – respondi, pensando que não havia mais jeito de tentar encurtar aquela conversa.
- Mas como assim???
- Não concordo com a exploração de animais para nosso benefício.
- Aaah, então vc é igual os indianos???
- Não, eles comem frango. Eu não como nenhum tipo de carne.
- Ah, entendiii... Ai, eu também não gosto de ver bicho sofrer não, viu? Se eu ver matar eu não como.
- ...
- Nossa, que coisa, viu!! Muito legal!! Olha, tá aqui sua notinha. Só aguardar.
Fui meio transtornada para a mesa, com a senha na mão, pensando o que raios tinha sido aquele diálogo. Eu já tinha ouvido muita coisa nos últimos 5 anos. Já até me perguntaram se eu não sentia mais sono porque não como carne. “É, eu tenho uma impressão de que vegetarianos sentem mais sono...”, disse a pessoa. Mas nunca ninguém tinha me oferecido bacon com um hambúrguer vegetariano. Já tinham me perguntado qual era o ponto da “carne”, mas nunca se eu queria um pedaço de porco em cima do hambúrguer de soja.
Eu nunca, também, tinha me sentido tão ET por ser vegetariana. Eles (a mulher do caixa e o cara do lado) me olharam como se eu fosse uma hippie maluca, igual àquela mulher do filme About a Boy. Eu estava passada.
Porém, quando minha senha foi anunciada no painel, o desfecho da conversa foi ainda mais bizarro. Fui pegar minha bandeja rápido, para não dar chances a outros comentários, mas foi inútil:
- Moça, você tem Orkut?
E agora? Quem não tem Orkut nessa vida? Tive que pensar rápido. E a raiva pela conversa anterior parece que tinha me dado esse poder.
- Tenho sim. Me procura lá: Fernanda Rodrigues.
- Fernanda Rodrigues?
- Isso mesmo.
- Tá bom, vou te adicionar!!
Saí com a bandeja na mão dando gargalhadas por dentro. Existem pelo menos umas 3 mil Fernandas Rodrigues no Orkut, e nenhuma delas sou eu, porque meu nome não está assim lá.
E me senti vingada. Não, eu não iria contar minha história de vida vegetariana para a gorda do caixa via scrapbook e não iria deixá-la ver minhas fotos como se eu fosse uma amiga íntima, quando na verdade era apenas alguém que ela via com cara de brócolis. Eu queria fazer um longo discurso sobre o vegetarianismo, dizer que não é maluquice, capricho, muito menos a solução para perder peso. Ao invés disso, contei uma mentirinha. E nunca tinha comido um hambúrguer tão saboroso quanto aquele.
28 de setembro de 2009
A da inveja - mas inveja boa, tá?
Já dizia Platão, em seu livro A República, que existem duas formas diferentes de cobiçar objetos ou qualidades alheias: a inveja e a emulação.Inveja todos nós sabemos muito bem o que é. Um sujeito cobiça o que ele não pode ter e torce para que o cobiçado afunde na lama, perca tudo o que tem, se torne um desgraçado. Resumindo, funciona mais ou menos assim: comprou uma BMW? Vai bater na primeira volta. Tem um marido bonito? Ele vai te trair, pode ter certeza. Está ganhando um bom salário? Não se preocupe, a demissão vem em seguida. E tudo por causa daquela vizinha gorda que não tira o olho grande de sua bem-sucedida vida.
Emulação é diferente. É muito mais admiração do que maldade. É basicamente uma forma de seguir uma pessoa (dando “follow” ou não), tendo-a como um mestre, um exemplo. Você pode emular um escritor, um músico, um amigo, seus pais ou, para os mais workaholics, seu chefe. Mas você não deseja o mal; ao contrário. Quer que seu emulado seja cada vez mais bonito e inteligente para que você possa, quem sabe, um dia, ser como ele.
Mas e a famosa “inveja boa”, onde entra? Não é contemporânea de Platão, mas é muito mais citada do que ele em nossos dias.
- Ai, meniiiina, que sapato lin-doooo! Deu até inveja!! Mas é inveja boa, viu?
A resposta é simples: “inveja boa” é um eufemismo para a inveja velha e pura. Você quer o sapato, acha que o merece mais do que a outra sirigaita. Aceite, você é uma invejosa e nada vai mudar esse fato.
Mesmo que você tente dizer que sua inveja é boa, por mais flexível que essa língua de Camões possa ser, essa acepção não existe. E o Aurélio, tadinho, não colocou essa definição em suas páginas e nem vai colocar. Quevedo repetiria: “ISTO NO EQUISISTE”.
Portanto, vá tratando de tirar “inveja boa” de seu léxico e de trabalhar um pouco para ter um sapato bonito também antes que, de tão invejosa, você seja a perfeita emulação da vizinha gorda.
3 de agosto de 2009
A do exame médico
Nunca entendi a utilidade desses exames. Você chega lá, entrega seu RG, assina a guia, espera te chamarem, entra no consultório, responde algumas perguntas, o cara de avental mede sua pressão, ouve seus batimentos, assina o papel, carimba e te entrega desejando boa sorte, coisa e tal. Qualé, pra quê toda a perda de tempo? Eu tenho medidor de pressão em casa. Se é pelo estetoscópio, tenho certeza de que poderia arranjar um e assinar meu próprio "laudo médico" - leia-se assinalar "apto(a)" com um x.
Porém, como ainda não tenho estetoscópio nem CRM, fui até a Xavier de Toledo fazer meu exame admissional. Era um prédio arrumadinho no meio daquela rua horrososa, bem do lado do metrô Anhangabaú. Fiz o procedimento de sempre: falei ao porteiro que iria até a clínica, entreguei minha CNH e dei um sorrisinho pra webcam na minha frente. Subi e fui até a sala 101, onde ficava a tal clínica.
O chão era branco brilhante, com um cheiro absurdo de Pinho Sol. Na frente da porta, o "guiche 07"(sic), ao qual me dirigi.
- Oi. Vim fazer exame pela Pearson.
- Tem algum papel aí?
- Eles disseram que enviaram por fax.
- Me empresta seu RG?
- Aqui.
- Só aguardar.
Sentei num lugar perto do tal "guiche". Coloquei o fone de volta na orelha e fiquei observando as pessoas entrarem. Eram umas 13h30, parece que os médicos estavam almoçando, porque ninguém era chamado. E a mulher do "guiche 07" ainda tinha que me chamar para assinar a guia, que depois de 20 minutos de espera eu estava torcendo ferozmente para que ela tivesse achado.
Quando ela finalmente me chamou, ainda tive que dizer qual era meu estado civil, onde nasci e qual seria meu cargo. Falei pausadamente:
- Designer ins-tru-ci-o-nal júnior.
- Assine aqui e aqui, por favor.
Conferi e ela tinha escrito o cargo corretamente. Ainda bem, só faltava ter que esperar mais 20 minutos para ela fazer uma nova guia. Assinei, peguei a senha (oh, Jesus, ainda tinha senha!) e voltei ao meu lugar. Não deu 3 minutos um cara gordinho de bigode e avental amarelado estava me chamando.
- Fernanda Rodrigues! Fernanda!
Fui andando rápido atrás dele e entrei no consultório.
- Pode se sentar. Então, você vai trabalhar na Pearson Education do Brasil. Pearson Education. Como designer... designer instru... what the hell is that?
- Designer instrucional.
- Ah, designer instrucional? Hum, designer instrucional. Pearson Education. Escola de inglês, né?
- Não, é uma editora.
- Ah sim, editora! É que tem uma outra que tem uns dicionários, uns livros de inglês, uns dicionários que você vai lá - ele falava e colocava o medidor de pressão no meu braço -, não lembro o nome dessa.
- Longman?
- Isso, Longman!
- É da Pearson também.
- Isso, Longman! E Penguin! Que tem uns livrinhos de inglês bem facinho... isso mesmo, Longman. Então, designer... você vai fazer as capas, colorir, fazer as capas dos livros, né?
- Não, não, vou projetar cursos online.
- Ah, cursos online! Que interessante! Sabe, tem um amigo meu que está aprendendo italiano. Ele está há meses, meses!, na primeira lição do livro. Há meses na primeira lição, veja só que coisa! E não adianta, ele passa um tempão fazendo e não aprende nada. Porque não adianta ter o melhor livro do mundo. Você dá um livro pra ele e pergunta: "gostou desse?", ele fala "não". E desse aqui? "não". Então não adianta, não importa o livro se a pessoa não interesse!
- Uhum. - Já estava ficando sem paciência com o velho.
- As meninas aqui estão fazendo inglês. Você fala inglês, né? - Ele ameaçava riscar a ficha e nunca riscava.
- Uhum.
- Então, elas querem falar também, estão fazendo aula e tudo mais. E outro dia eu perguntei: "estão estudando inglês?" e elas disseram: "não, estamos de férias." Mas imagina, estão de férias! Para aprender inglês você tem que praticar, não importa se está ou não de férias. Tem que ir lá no livro, ver o vocabulário, lembrar, voltar e ir revendo tudo.
- Uhum.
- Porque não adianta, Fernanda, se a pessoa não tiver interesse, não há design que chegue! Não há design que chegue!
O sorrisinho simpático que eu tinha no começo já tinha ido embora.
- Porque inglês engana a gente. Em português a gente tem 4 artigos. Em inglês tem só um! Aí o cara vai lá naquele Yahoo, Yahoo Answers... conhece esse?
- Uhum.
- Então o cara vai lá e fala que quer traduzir "carecão" para o inglês em uma palavra só. Não dá, não é igual português! Que nem, que nem "um amigo". Você não vai traduzir para "one friend", numeral. Tem que ser "a friend", mas o pessoal não entende. E se não tem interesse em aprender, não tem, não tem design que chegue!
- É. - Impaciente, já pegando a bolsa na outra cadeira.
- Então tá aqui, Fernanda, vou assinar aqui, porque o importante é você se sentir bem, né? O importante é se sentir bem e ir em frente. E você eu tenho certeza que está bem, né?
- Sim! Sim, claro!
- Então é isso aí. Esse papel vai para a Pearson e você pode entregar para eles e dizer que está tudo bem. Porque o importante é você se sentir bem, o resto é resto. Então boa sorte na Pearson!
- Obrigada, doutor. - Praticamente arranquei o papel da mão dele.
Nem acreditei! Um exame admissional com 20 minutos de duração! Sem perguntas sobre a última vez em que fiquei menstruada, meu peso e altura, nada disso. Nem sei se minha pressão estava normal, porque ele mediu enquanto falava e sequer parou um minuto. Incrível como médicos podem ficar realmente carentes.
Da próxima vez vou entrar com cara de bem (mais) mau-humorada e adiantar que estou com pressa e que parei o carro na contra-mão. Claro que ele iria fazer alguma piadinha sobre meu tamanho e o fato de já ter habilitação, mas seria melhor do que aguentar todo o papo sobre o cara que não consegue aprender italiano.
20 de julho de 2009
A do Dia do Amigo, do homem na Lua e outras histórias
Depois do Dia do Homem (que me pegou completamente de surpresa e não me deu tempo para fazer um post especial), hoje é dia de comemorar o Dia do Amigo. Mesmo achando essas datas comemorativas um tanto quanto banalizadas, principalmente no âmbito comercial, fiz questão de mandar um Feliz Dia do Amigo para alguns dos meus e só depois fui ver que a data tinha sido adotada primeiro na Argentina, devido à chegada do homem na Lua. Sim, eu sei que não faz sentido, mas o país da gripe suína fez alguma coisa, enfim. As empresas de cerveja é que deviam agradecer aos argentinos.Então hoje, 20 de julho de 2009, a chegada do homem à Lua completa 40 anos. E olha, amigo, acho que nenhuma outra história rendeu tanto quanto essa. Se você for lá na sua barrinha do Google e digitar homem lua, vai achar uma infinidade de sites com a maior variedade de informações sobre esse assunto. Um deles chama bastante a atenção (é o segundo da lista, ficando atrás apenas das notícias): www.afraudedoseculo.com.br
Trata-se do site de um brasileiro que tem um livro "em processo de desenvolvimento" chamado A Fraude do Século e nos dá uma "palhinha" sobre suas constatações. O currículo do autor:
"Formado em Processamento de Dados e Administração de Empresas.
Como consultor de informática, escreve matérias de informática para vários jornais do Estado de Minas Gerais, já tendo atuado também como colaborador e revisor de um dos livros do professor Pasquale Cipro Neto."
Portanto ele é um PD-ADM-revisor do Pasquale, mano! Acho melhor não comentar mais nada a respeito da formação do rapaz.
O texto publicado no site é bem grande, por isso não vou descrevê-lo aqui, mas você pode dar uma olhada e tirar suas próprias conclusões. De tudo o que ele descreve lá, a única coisa que me deixou com a pulga atrás da orelha foi o sumiço da fita original da NASA. Eu, que tive a oportunidade de visitar a as instalações da NASA em Cabo Canaveral no início desse ano mesmo e vi com meus próprios olhos como as coisas por lá são neatly organizadas e seguras, confesso que achei essa história um pouco estranha também. O resto é coisa de soviético com dor de cotovelo.
Sobre o local onde teria ocorrido a farsa da chegada à Lua, o dono do site menciona:
"Agentes do governo dos Estados Unidos poderiam ter levado os astronautas e alguns auxiliares a um treinamento secreto no Deserto de Nevada, Estados Unidos, que, em vários locais, tem uma enorme similaridade com a aparência das fotos que teriam sido tiradas na Lua."
No mesmo mês em que fui à NASA, passei pelo tal Deserto de Nevada e posso assegurar que, fora a desolação completa, não tem nada a ver com a Lua. O solo não é arenoso como o da Lua parece ser. É duro e seco. É um catingão parecido com o que temos no Nordeste e em parte do Tocantins, com vegetação baixa e às vezes com cactos gigantescos, do tamanho de árvores. Veja mais ou menos como é
Para encerrar, deixo o meu conselho a esse rapaz do site e às outras pessoas que, em pelo século XXI, após inúmeras missões espaciais terem ocorrido com sucesso, ainda acreditam que a chegada à Lua é balela: saiam da Sibéria.
6 de julho de 2009
A do cabeleireiro
Dia desses me submeti a um procedimento chatíssimo no cabeleireiro e - que maravilha - esqueci de levar um livro. Depois de o cabeleireiro insistir várias vezes, acabei aceitando "uma revista", rezando para que fosse pelo menos uma Veja (pra vocês verem até que ponto eu cheguei). Veio uma QUEM - uma não, duas - e eu ainda tinha umas 2 horas pra me divertir com elas. Resolvi folhear leeentamente.Comecei a dar risada com as fotos e suas respectivas legendas:
- Claudia Gimenez toma caipirinha.
Foto da mulher feliz e contente com o copo na mão.
- Bruno Gagliasso e sua inseparável boina.
Foto do cara com sua boina.
- Fernanda Lima passeia com os gêmeos.
Foto da mulher com seus filhos na praia.
E tudo seguia mais ou menos dessa forma: foto besta, legenda idiota. É claro que os artistas não têm culpa nenhuma, estão ali levando suas vidinhas como eu e vocês (só que com mais dinheiro). Mas e daí que a Claudia Gimezes toma caipirinha, que o Bruno Gagliasso usa boina e a Fernanda Lima passeia com os filhos? O que tem de interessante nisso tudo?
O melhor mesmo veio na entrevista com o tremendão. Erasmo Carlos dizia que ainda é namorador, que tinha um quarto de motel dentro de casa, que nunca tomou viagra mas que tomaria se necessário, que fazia surubas quando estava na Jovem Guarda, entre outras preciosidades. Ah sim, a entrevista tinha o pretexto de falar sobre o novo disco dele, que está mais "roqueiro".
Em uma parte da entrevista a repórter perguntou se ele era machista. Ele respondeu que a geração dele foi criada assim, que homem tinha que ser macho, não podia chorar, etc. Fiquei pensando quantos "tremendões" ainda temos por aí, quantos homens de 45 a 50 anos não são machistas com essa mesma desculpa: "isso vem criação". É verdade que cada um é do jeito que foi criado? Ou a pessoa é criada de um jeito e "aceita", digamos assim, aquilo que mais acha correto? A criação de toda uma geração é pretexto para machismo? A geração atual ainda é criada como o Erasmo Carlos?
Enquanto as perguntas pairavam sobre minha cabeça, o cabeleireiro me chamava para lavar o cabelo. Fechei a revista e fui, esperando que a lavagem fosse a mais profunda possível e que eu esquecesse de tudo o que li naquelas 2 horas.
30 de junho de 2009
A do CQC na USP
Foi ao ar ontem, no CQC, uma matéria feita pelo Danilo Gentili sobre a greve na USP. Quem quiser pode assisti-la aqui:
Normalmente eu gosto das matérias do CQC. De verdade. Mas essa foi uma das reportagens sobre greve na USP mais ridículas que vi nesses últimos 56 dias, superando até as do SPTV*. Sintetizar em 6 minutos a divisão entre greve e anti-greve que existe (e sempre existiu) na USP é tarefa complicada, é verdade. Mas o Danilo e sua produção sequer se esforçaram.
*Não se preocupe, Datena, o 1º lugar ainda é seu.
Primeiro, expuseram um estudante agredido ao ridículo. Como o próprio estudante menciona, existem mesmo vídeos que mostram agressões de grevistas contra anti-grevistas, assim como existem vídeos da PM agredindo os grevistas também. Não dá para fazer piada em cima de agressão, sinto muito.
Segundo: quem foi que disse que quem é a favor da greve é estudante de Humanas? Fazer o cara do IME dizer que FFLCH, ECA, FE e cia. são a favor da greve só amplia ainda mais o racha que existe na USP entre Humanas e Exatas e generaliza completamente uma realidade que nunca foi essa. A FFLCH, por exemplo, em sua maioria, não apóia as greves. Simplesmente não se mobiliza contra elas. E, se parte daqueles que são contra as greves decide participar das assembleias, são obrigados a aguentar horas e horas de blablabla até que se chegue finalmente a uma votação - que é refeita na semana seguinte e na seguinte, até que grevistas vençam pelo cansaço.
O que nos leva ao terceiro fato: os flash mobs que surgiram esse ano na USP, chamados de "greve da greve", são de fato movimentos bem mal organizados e vazios do ponto de vista argumentativo, mas ao menos existem. Em 2007 milhares de alunos contra a invazão medonha da reitoria nada fizeram, pelo menos esses alunos resolveram fazer algo esse ano. Ainda que algo no estilo Malhação, já é um começo. Quem sabe em 2011 esse pessoal não faz um manifesto ou algo parecido, não combina todo um discurso e faz faixas maiorzinhas para aparecer bem na mídia, não é mesmo?
Ao final, quando Rafinha Bastos e Professor Tibúrcio comentam a matéria, disseram não entender o fato de estudante fazer greve. Afinal, de que lado eles ficaram? Primeiro quem é contra greves é feito de bobo, depois quem é a favor é retardado. Parece que quem trabalha no CQC também não entende muito de lógica.
É realmente triste que formadores de opinião tentem ridicularizar cada vez mais a já ridícula situação da USP. E é triste também ver que tudo sempre começa do mesmo jeito: "A universidade mais importante do país..."Sim, a USP é a mais importante, aquela com maior número de funcionários, docentes, cursos, prédios, partidos políticos e sindicalistas que se organizam em seus meses de reajuste em prol de míseros 6,5% de reajuste salarial. Isso não vai mudar. Mas parece que todo mundo, principalmente a reitora, quer ver o circo pegar fogo. Taca a PM lá, a Globo, a Band, a Rede TV... vai, entra todo mundo e faz a matéria que quiser, mostra que estudante da USP é tudo babaca mesmo, que não paga e não quer ter aula, que quem quer ter aula é nerd imbecil, vai... No final a gente dá risada, faz uma assembleia e decide voltar ao normal como se nada tivesse acontecido.
Normalmente eu gosto das matérias do CQC. De verdade. Mas essa foi uma das reportagens sobre greve na USP mais ridículas que vi nesses últimos 56 dias, superando até as do SPTV*. Sintetizar em 6 minutos a divisão entre greve e anti-greve que existe (e sempre existiu) na USP é tarefa complicada, é verdade. Mas o Danilo e sua produção sequer se esforçaram.
*Não se preocupe, Datena, o 1º lugar ainda é seu.
Primeiro, expuseram um estudante agredido ao ridículo. Como o próprio estudante menciona, existem mesmo vídeos que mostram agressões de grevistas contra anti-grevistas, assim como existem vídeos da PM agredindo os grevistas também. Não dá para fazer piada em cima de agressão, sinto muito.
Segundo: quem foi que disse que quem é a favor da greve é estudante de Humanas? Fazer o cara do IME dizer que FFLCH, ECA, FE e cia. são a favor da greve só amplia ainda mais o racha que existe na USP entre Humanas e Exatas e generaliza completamente uma realidade que nunca foi essa. A FFLCH, por exemplo, em sua maioria, não apóia as greves. Simplesmente não se mobiliza contra elas. E, se parte daqueles que são contra as greves decide participar das assembleias, são obrigados a aguentar horas e horas de blablabla até que se chegue finalmente a uma votação - que é refeita na semana seguinte e na seguinte, até que grevistas vençam pelo cansaço.
O que nos leva ao terceiro fato: os flash mobs que surgiram esse ano na USP, chamados de "greve da greve", são de fato movimentos bem mal organizados e vazios do ponto de vista argumentativo, mas ao menos existem. Em 2007 milhares de alunos contra a invazão medonha da reitoria nada fizeram, pelo menos esses alunos resolveram fazer algo esse ano. Ainda que algo no estilo Malhação, já é um começo. Quem sabe em 2011 esse pessoal não faz um manifesto ou algo parecido, não combina todo um discurso e faz faixas maiorzinhas para aparecer bem na mídia, não é mesmo?
Ao final, quando Rafinha Bastos e Professor Tibúrcio comentam a matéria, disseram não entender o fato de estudante fazer greve. Afinal, de que lado eles ficaram? Primeiro quem é contra greves é feito de bobo, depois quem é a favor é retardado. Parece que quem trabalha no CQC também não entende muito de lógica.
É realmente triste que formadores de opinião tentem ridicularizar cada vez mais a já ridícula situação da USP. E é triste também ver que tudo sempre começa do mesmo jeito: "A universidade mais importante do país..."Sim, a USP é a mais importante, aquela com maior número de funcionários, docentes, cursos, prédios, partidos políticos e sindicalistas que se organizam em seus meses de reajuste em prol de míseros 6,5% de reajuste salarial. Isso não vai mudar. Mas parece que todo mundo, principalmente a reitora, quer ver o circo pegar fogo. Taca a PM lá, a Globo, a Band, a Rede TV... vai, entra todo mundo e faz a matéria que quiser, mostra que estudante da USP é tudo babaca mesmo, que não paga e não quer ter aula, que quem quer ter aula é nerd imbecil, vai... No final a gente dá risada, faz uma assembleia e decide voltar ao normal como se nada tivesse acontecido.
27 de junho de 2009
A do Fim do Mundo

Quantas vezes o Fantástico já noticiou alguma coisa relacionada ao Fim do Mundo? A primeira vez (ao menos a que eu presenciei) eu me lembro bem: 9/9/1999. Eu estava na 5ª série e eu e meus coleguinhas adorávamos fazer as piadinhas sobre a data.
- Professora, marca essa prova aí pro dia 9!
- Tchau, Fulano, até amanhã! Eu acho.
É claro que na época tinha a maior graça.
O fato é: todo mundo sabe que esse mundo não acaba enquanto Obama não declarar a paz no Oriente Médio, os Estados Unidos não concordarem com o aquecimento global e enquanto a ONU não tombar a Dona Mariza como patrimônio histórico da humanidade. Mas acreditem, ainda tem gente que bate o pé na história de que o fim do mundo está próximo. E tem data certa novamente: 21/12/2012.
Só que dessa vez o Fantástico não falou nada sobre o fim do mundo. Na verdade, deve ter falado, mas hoje em dia eu não assisto mais televisão. E como nessa vida tudo é digital, o Fim do Mundo tem site próprio: www.fimdomundo2012.com.
Eu resolvi dar uma olhadinha só por curiosidade, mas tem muita, muuuita coisa pra olhar e o site parece ter sido feito por um neanderthal e seu FrontPage, então fica realmente difícil. Mas uma olhadinha superficial já é suficiente para nos divertir nessa madrugada.
A explicação
"(...) O mesmo calendário [maia] prevê uma mudança radical para o solstício de inverno (verão no hemisfério sul) de 2012. Em 21 de dezembro de 2012 acontecerá um fato que mudará o nosso planeta da forma que conhecemos. Terceira Guerra Mundial, Crise Econômica se transformando em Depressão Econômica Mundial, Cometa, Planeta, Nova Ordem Mundial? Só Deus sabe!"
Bem, qualquer um que tem mais de 10 anos sabe que os maias eram do hemisfério sul. Por que raios eles previram uma mudança para solstício de inverno se qualquer um que vive no hemisfério sul chama essa data de solstício de verão? Mas bom mesmo é ver que o site é bem atualizado. Já tem a crise econômica no meio. Analistas dizendo que a economia está se recuperando? Balela! Vai ser uma depressão mundial. Ou cometa. Ou planeta (???). Ou nova ordem mundial. Só Deus sabe mesmo.
Numerologia
"Você já olhou para o relógio e ele estava marcando 11 horas e 11 minutos? Os numerologistas acreditam que os eventos ligados ao 11:11 aparecem com mais freqüência que a probabilidade, enquantos os críticos acreditam que é apenas uma simples coincidência."
Essa foi a minha preferida. Sim, porque numerologia é o core business do fim do mundo, então nada mais justo do que dedicar um certo tempo a isso. Alguém aqui já olhou no relógio e ele estava marcando 11h11? Eu não.
O aviso
"Este site não tem a intenção de gerar pânico
Nosso objetivo é entender o que pode acontecer em 2012 e como nós poderemos nos [arrrght!] preparar se as previsões de uma grande mudança estiverem corretas. "
Não tem a intenção de gerar pânico? Que alívio! Porque se não fosse por esse aviso, eu diria o contrário. Agora, como nos preparamos para as previsões? Ah, claro:
- Se for um meteoro, podemos implodi-lo no mais glamuroso estilo Armagedon, com direito a Aerosmith como soundtrack.
- Se for a 3ª GM, podemos... lutar nela.
- Caso a crise se transforme numa depressão a gente manda o JK aplainar tudo e reconstruir Brasília que fica tudo certo.
- Se surgir uma nova ordem mundial a gente torce para que o Brasil seja 1º mundo nela. Se não for, formaremos o Exército dos 12 Macacos junto com o pessoal do PETA.
- E se for um planeta... bom, nesse caso abraçamos os familiares, filmamos tudo para colocar no YouTube e juntamos artefatos valiosos pra anunciar no e-Bay em caso de sobrevivência. Tudo isso enquanto rezamos para que o Twitter não saia do ar, porque #fimdomundo será trending topic na certa!
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