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3 de janeiro de 2010

A do trágico, a do cômico

Como estou abandonada em SP desde ontem, condenada aos freelas intermináveis que, quando terminam provisoriamente, me deixam sem nada para fazer, resolvi rever um filme do Woody Allen que adoro: “Melinda e Melinda”.

“Melinda e Melinda” é um dos novos de Allen, porém foi filmado antes de “Scoop” e “Match Point” (só não sei ao certo o ano). Quem diz que o velhinho está perdendo seu toque se surpreende com esse filme, com toda a certeza. Todo o argumento se passa em um jantar entre amigos, quando dois diretores teatrais discutem uma história que um deles ouviu tempos atrás. Um dos diretores acha que a história deve ser contada como uma tragédia; o outro, que deve ser uma comédia. E assim as duas histórias se intercalam, hora com ênfase na parte dramática, hora com ênfase na parte cômica.

De início, essas intercalações são mediadas pela própria narração dos diretores, até para que seja possível acompanhar com mais facilidade que história é qual. Com o tempo, memorizamos os atores de cada história (que são diferentes) e Allen deixa que os cortes tomem conta de cada uma das narrativas.

O que é interessante é que em cada história existe um mesmo fato que toma rumos diferentes quando visto sob outra perspectiva. Essas diferenças no modo como cada coisa é encarada fazem com que cada personagem tenha um destino distinto em cada uma das abordagens. Mas é impossível não notar que a narrativa cômica tem seus momentos trágicos, assim como a narrativa trágica tem seus momentos cômicos.

Já fazia tempo que não assistia a “Melinda e Melinda”. Dentro das limitações de um domingo solitário e cinzento, posso dizer que foi uma ótima escolha. E não deixa de ser um alerta a todos nós, neste começo de ano: em nossas vidas, o trágico e o cômico convivem o tempo todo. A diferença toda está no olhar.

16 de novembro de 2009

A da volubilidade

Atire a primeira pedra quem não é volúvel neste mundo. Melhor: redija o primeiro comentário ofensivo quem não é portador desse fino traço de volubilidade. Pensando bem, quem acreditar não ser volúvel, que pense melhor no assunto amanhã para ver se não muda de ideia. Porque todos nós mudamos de ideia uma vez ou outra, e sabemos no fundo que não temos muita certeza se essa "vez ou outra" não é corriqueira demais.

Machado de Assis tratou esse tema fielmente em diversos contos. Em "D. Benedita", por exemplo, descreve uma senhora tão indecisa da vida que não consegue completar nenhum plano, fazer uma única resolução. Não estou dizendo que sejamos todos assim. Mas é bem provável que tenhamos fases da vida com idas e vindas.

O vestibular é a mais vil prova de volubilildade a que um ser humano pode se submeter. Escrever em um papelzinho sua opção de "carreira"? Quando prestei vestibular eu mal sabia o significado dessa palavra, quanto mais se estava certa da minha opção! Conheço várias pessoas que mudaram o número da tal "carreira" da Fuvest na fila de inscrição. Uma verdadeira crueldade essa história de vestibular.

"Mas você está falando de decisões importantes", vocês podem argumentar. As decisões importantes são realmente as mais difíceis, mas não são as únicas formas de exercermos nossa volubilidade. A indecisão passa também pelo prato que pedimos no almoço, pelo corte de cabelo, roupa que iremos vestir e por aí vai. O fato é: não ofereça uma lista muito grande de opções a uma pessoa. Fatalmente ela irá surtar.

Mais exemplos de volubilidade? Twitter. Siga uma pessoa qualquer que costume narrar seu dia inteiro lá. Veja quantas vezes ela ficará em dúvida e mudará de ideia. Sim, porque ser volúvel não é apenas ficar em dúvidas, deixo bem claro. É principalmente mudar de rumo sem muito porque, simplesmente porque quer. No Twitter as pessoas adoram expressar suas idas e vindas.

Porém devo ser justa: sendo todos nós volúveis e não existindo nada nesta vida que seja definitivo, a volubilidade não é assim tão ruim. Muito pior seria ter não ter o direito de mudar de ideia, ou ainda ter tão poucas possibilidades que as escolhas limitadas sequer poderiam gerar dúvidas. Imaginem um cardápio de um prato só, uma universidade de um só curso, roupas únicas, cortes de cabelo padronizados... Que tedioso seria o mundo da involubilidade! Pessoas presas em decisões que não tomaram ou que foram obrigadas a tomar. Uma ditadura sem ditadores. Que seria deste post sem a volubilidade, afinal? Um brinde à volubilidade, meus leitores, um brinde ao motor da vida - mais um assunto chato para este blog.

30 de outubro de 2009

A da música e da poesia - parte 2

No último post falei sobre minha percepção sobre o vínculo (no caso, o não-vínculo) entre música e poesia. Levando em consideração os comentários e as discussões que surgiram, achei interessante fazer um novo post para argumentar melhor minha percepção – destaco isso porque não tenho como comprovar minhas referências sobre o assunto e nem é minha intenção trazer tanto rigor ao blog. Tudo o que está aqui tem como base as minhas aulas, minhas leituras e a própria música, seja como ouvinte, seja como compositora.

Coincidentemente, ontem tive uma aula sobre Simbolismo com a professora Simone Rufinoni, especialista em Cruz e Sousa talvez a única lá na USP. Em determinado momento da aula, ao falar sobre os recursos utilizados pelos simbolistas – sinestésicos, principalmente -, ela mencionou como exemplo uma estrofe do poema “Violões que Choram..., do Cruz:

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,

Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Simone definiu a aliteração do V nessa estrofe como utilização da música no poema, já que a intenção dos simbolistas era evocar os sentidos, utilizar recursos do próprio homem para atingir a “transcendência vazia”, que seria, simplificando bem, uma transcendência não baseada no misticismo, nos dogmas religiosos etc.

Porém, em dado momento da aula, ela utilizou outra palavra que me
deu um estalo: musicalidade. A aliteração nessa estrofe sugere, segundo a interpretação mais comum do poema, o som de um violão. Foi quando eu entendi musicalidade e música como conceitos diferentes.

Explico. A música deve ter três elementos básicos: harmonia, melodia e ritmo. A musicalidade seria a utilização de recursos literários que lembrem um desses elementos como apoio para um poema ou outro texto escrito. A lírica usa isso com frequência, e talvez seja por isso que tantos de vocês acharam absurda a minha distinção tão grande entre música e poesia: estamos pensando em conceitos diferentes. Eu vejo a musicalidade como um recurso que a poesia utiliza, mas que não é, nem nunca será, a própria música, pois transpor harmonia e melodia à escrita é impossível – ao contrário do ritmo.

Portanto, no poema de Cruz e Sousa, temos um exemplo do que falei no último post: emulação de sonoridade, que não é harmonia e nem melodia, mas a utilização de um recurso estritamente escrito para criar sonoridade que se destaca foneticamente. Mas não consigo ouvir um violão nessa estrofe. É um nível de abstração muito difícil de ser comprovado objetivamente, por isso muito pessoal.

Sei que existem teóricos que comparam a música com a poesia, mas não os considero referência inquestionável. O próprio professor Luiz Tatit, mencionado em um dos comentários e com quem também tenho aula, analisa semioticamente letras de música ou melodias de canções, mas nunca a música como arte poética. Talvez porque a Semiótica Narrativa não dê conta desse tipo de análise, ou porque esse tipo de análise não tem total rigor comprovado, enfim, é algo passível de maior pesquisa.

Até agora falei da relação entre poesia e música. E da música com a poesia? Aqui entra o que falei no último post. O processo de composição de uma música é totalmente diferente da composição da poesia. Isso porque uma letra de música é feita já pensando na melodia, no cantar. A poesia nunca envolve canto. Pode envolver oralidade, como aquela que encontramos em Grande Sertão: Veredas (praticamente uma prosa poética), mas não envolve canto. Portanto apesar dos elementos em comum que já mencionei antes – ritmo, rima e acento – a música se mantém distante da poesia pelo processo de composição e aplicação do ritmo que determina, necessariamente, a melodia e a harmonia, o que não ocorre na poesia, onde o ritmo está separado desses dois elementos.

Resumindo, diria que, de um lado, temos dois pólos separados: poesia e musicalidade X música. A poesia é a base, a musicalidade pode ser o apoio. Não é a música em si, apenas a utilização de uma emulação de elemento musical na escrita. E, do outro lado, temos que a música não contém poesia por abarcar elementos distintos dos que existem na poética, com apenas alguns recursos em comum: rima, ritmo, acento e, em alguns casos, oralidade, porém utilizando a melodia e a harmonia como a “cola” que une esses recursos.

Por tudo isso, reitero minha afirmação: música é música, poesia é poesia. Pensar em
um pano de fundo que seja comum entre as duas, como a musicalidade e a oralidade, parece-me ser o caminho mais viável. Mas esse pano de fundo não faz com que uma coisa possa ser facilmente transposta para a outra: poesia e música continuam sendo duas artes totalmente diferentes.

26 de outubro de 2009

A da música e da poesia

Eu não consigo entender a relação que as pessoas fazem entre música e poesia. E não é que me falta base teórica: esse semestre mesmo, durante as aulas de Teoria Literária com um especialista em escrita e oralidade, fui obrigada a ouvir, por exemplo, “Navio Negreiro” do Castro Alves na voz do Caetano Veloso com batuques ao fundo. Quem me conhece sabe bem que isso foi um momento bem difícil da minha vida.

Em outra aula do curso, o professor, no ápice de suas conclusões, colocou para tocar o canto do sabiá laranjeira, contando em seguida as sílabas e acentos. “O sabiá canta em redondilha maior!”, exclamou empolgado. Ele tinha acabado de nos mostrar que a "Canção do Exílio" também foi feita em redondilha maior e estava quase com uma lágrima escorrendo pelos olhos, já pensando nas relações que sua descoberta poderia ter com aquelas aves que aqui gorjeiam e não gorjeiam como lá. Eu (junto com toda a turma) não consegui segurar a risada.

O que me parece é que a gente vê música em qualquer poesia que quer ver. E pode ver poesia em música também, mas isso não quer dizer que as duas coisas estejam conectadas. Dizer que alguma coisa é poética, em geral, faz com que a coisa assuma um valor maior do que tem. E para isso cito o exemplo do Chico Buarque: quantas pessoas nesse país não o clamam como o maior poeta brasileiro?

Sem entrar nos méritos da questão, posso dizer seguramente que isso está errado. Tudo bem ficar em dúvida entre Bandeira e Drummond, Bilac e Cruz de Souza (ok, riscarei esses dois últimos), mas Chico não deveria entrar na lista. Ele é um compositor, escreve músicas (e aqui eu mais uma vez me esforço para ser bastante imparcial), e tenho certeza que jamais pensou em publicá-las em um livro. Afinal, ele tem livros publicados, quase todos eles em prosa. Também sem entrar nos pormenores da qualidade desses livros.

Música e poesia têm suas semelhanças, é verdade: os versos, as rimas e o sentimento que abarcam quando lidas ou ouvidas. Mas o propósito com que foram escritas anula qualquer possibilidade de classificá-las de outra maneira. Eu leio poesia e posso até aceitar alguém que a declame, mas música eu canto ou berro, escuto alta nos fones de ouvido ou toco a palhetadas rápidas na minha guitarra. Não consigo imaginar toda essa possibilidade de agressividade sonora na poesia, apenas uma emulação de agressividade que alguns fonemas podem assumir. O que jamais chegará a ser, de fato, um ritmo ou uma nota musical.

No final, algumas coisas ficam bem mais claras: um discurso poético pode ter características de discursos orais. Mas o musical vai bem além da possibilidade de oralidade. O musical é a união do que é interno com o que é externo, enquanto a poesia é a interioridade pura, com toques de exterioridade que não chegam a ser musicais a não ser que você construa, na sua interioridade, uma musicalidade própria da poesia escrita.

Mas esse post ficou filosófico demais. Vamos quebrar o gelo de vez: odeio MPB. Adoro poesia brasileira. Colocar as duas coisas assim, juntas em uma só pessoa, já é suficiente para comprovar minha teoria: música é música, poesia é poesia.

16 de setembro de 2009

A da sátira

Já pararam pra pensar no que é uma sátira? Tirando o fato de que ela sempre deixa uma parte em fúria e a outra rindo, ela nada mais é do que a tentativa de manutenção de um status quo.

Explico: a sátira tenta fazer com que nos conformemos com uma situação, embora tenhamos consciência de que ela está errada, fora de lugar. Ou você já viu uma sátira chamando o povo pra revolução? É sempre "o Sarney rouba nosso dinheiro. E nem percebemos", acompanhada de uma ilustração irônica, como um Sarney de máscara de ladrão atacando sua bolsa enquanto você conversa com alguém. Mas não é "o Sarney rouba nosso dinheiro, vamos derrubá-lo e instaurar a ditadura do proletariado para tirar o poder dos bolcheviques e dar todo o poder aos trabalhadores do Brasil."

Isso é triste, porque uma vez que você ri de uma sátira qualquer está ali sujeito a balançar a cabeça e seguir em frente. A sátira não espera outra coisa de você. E você também não espera nada mais dela. Sabe que ela é tão útil quanto os Trending Topics do Twitter: eles estão ali em evidência agora, mas daqui a 5 minutos todo mundo já esqueceu de tudo.

A sátira nos engana porque achamos que ela é um movimento de vanguarda, de contestação. Mas não é! Está ali pra tentar mostrar que não há nada que se possa fazer contra aquilo que ela teoricamente está contestando, e que você é simplesmente uma massa de manobra burra acreditando na liberdade que o sujeito satírico possui, dando risada de uma realidade que não vai mudar. A sátira é o fruto proibido que Eva comeu, todo mundo sabe, todo mundo acha graça e ele continua sendo fruto, continua sendo proibido. Não importa se ela vai comer de novo, e de novo, e de novo...

Pense na sátira como uma diversão aleatória que o destino quis colocar na sua vida. E, para o seu bem, pense nela como uma teoria bem trabalhada que pode salvar seu dia. E balance a cabeça concordando como se nada estivesse acontecendo, porque o satírico, de verdade, está aí: vai, humano bobo, dá risada da sua própria desgraça.

3 de setembro de 2009

A da felicidade brasileira


O site da revista Forbes fez um ranking das cidades mais felizes do mundo. Adivinha quem ficou em primeiro lugar? Rio de Janeiro. Por mais que isso possa parecer piada de mal gosto para os paulistas, a cidade carioca encabeçou a lista na frente de Sidney, Barcelona, Amsterdã, Melbourne, entre outras.

A pesquisa utilizou, como justificativa para a liderança, a imagem de felicidade passada pelo Carnaval, que revela bom humor e "boa vida". Usou também a imagem de jovens dançando alegremente e, como ilustração para o resultado, uma foto do jogador Adriano. Enfim, uma consolidação de todos os elementos mais brasileiros que existem: Carnaval, Mulher e Futebol.

O quão bom isso é para a imagem do Brasil lá fora? Vender que além de termos belezas naturais somos um povo alegre, com boas energias e receptivos é crucial para o nosso turismo, é verdade. Mas a dura realidade é que esse tipo de "constatação" só continua disseminando o que, ao meu ver, nos caracteriza com um povo sem nenhuma seriedade.

Isso é bem perceptível quando você ouve os comentários de gringos sobre nosso país. "Oh, Brazil, beaches, Carnival, Rio, Ronaldo..." E quando você diz que mora em "Sao Paulo" eles dizem que nunca ouviram falar. Aí você explica que a cidade é o coração econômico da América Latina, tem 11 milhões de habitantes e é tão agitada quanto Nova York e eles fazem cara de total surpresa: o país do povo pelado anda de terno também?

Cultivar a imagem da beleza e alegria não nos faz mais capazes de resolver nossos problemas sociais e econômicos. Ao contrário, nos traz outros problemas - turismo sexual, por exemplo. Faz com que o nosso país seja eternamente atrelado a coisas que não engrandecem a ninguém. Que gringo vem ao Brasil para visitar um de nossos museus ou conhecer um pouco da nossa curiosa história?

Ao invés de mostrar que não somos um bando de índios que nasceram para sambar e jogar futebol, reafirmamos tudo isso de sorriso no rosto e biquíni fio dental. E quem, assim como eu, não concordar com a tríade Carnaval-Mulher-Futebol como símbolos da nossa nação, é obrigado a tentar, todos os dias, ser menos brasileiro.

30 de julho de 2009

A da oportunidade


"A vida é feita de oportunidades". Atire a primeira pedra quem nunca se identificou com essa frase clichê, mas tão verdadeira. Oportunidade é o que move todos os dias de nossa vida.

Quer ver como é verdade? Você provavelmente começou a andar por causa de uma oportunidade - de alcançar a chupeta que caiu no chão, de chamar a atenção de seus pais ou mesmo de fazer alguma coisa diferente em seu dia-a-dia maçante. Andar foi a oportunidade que você encontrou para mudar alguma coisa.

Foi também em busca de uma oportunidade que você foi se sentar ao lado daquela pessoa, entrou naquele grupo de Feira de Ciências ou foi viajar para aquele lugar. E, por que não, foi para ter uma nova oportunidade que você saiu correndo do seu atual trabalho para fazer uma entrevista.

Da oportunidade nasceu a América - Canadá, Estados Unidos, Brasil e todo o resto. Foi também por causa dessa palavra maldita que Hitler matou milhares de judeus e que milhares de pessoas passam fome na África.

Há pessoas que arriscam a vida por uma oportunidade, atravessando fronteiras, viajando pra lugares isolados ou lançando-se em alguma favela do Rio de Janeiro. Com 18 anos, você gastou algo em torno de R$ 100,00 para pagar taxas e mais taxas de vestibular - e, nesse caso, o investimento pode ter sido bom ou ruim, mas isso é o que menos importa.

O fato é que eu não estaria aqui sem minha oportunidade em vista, nem você sem a sua. A primeira é a tentativa de escrever algo útil, a segunda a de ler algo que lhe agrade ou desagrade (para que você tenha o que comentar). E uma coisa é certa: nenhuma oportunidade é nula, sem resultado. Se for, não é oportunidade. É perda de tempo.