11 de fevereiro de 2010

A do lixo

Hoje peguei um cara jogando o papel de sua coxinha na calçada da Faria Lima. Por sorte, tinha um gari varrendo aquela mesma calçada, com a pá cheeeia de papéis nojentos como o da coxinha, bitucas de cigarro, caixinhas de suco (!!!) e por aí vai.

Mas, pera aí, porque o gari é obrigado a varrer tanta coisa assim? Com certeza não é porque ele pertence ao grau mais baixo da escala social. O normal seria ele ter apenas folhas na pá. Folhas das árvores de São Paulo...


...uhum.

O que acontece é que as pessoas adooooram falar mal do Kassab ou de quem for o prefeito (menos da Marta, “porque ela fez o corredor e o bilhete único”) e culpá-lo pelas enchentes dos últimos 918767689076 dias, mas se esquecem de todas as porcarias que jogam por aí. Já vi gente espremendo meio mundo dentro do ônibus só pra alcançar uma janela e jogar o papel de bala pra fora. Cadê os bolsos dessa pessoa? Não era mais fácil se espremer pra alcançar o lixo do ônibus?

Não que o lixo seja a única causa das enchentes. São Paulo é totalmente despreparada para tanta água em tanto asfalto, estamos cansados de saber. Mas dá uma olhada nas margens do Tietê ou do Pinheiros depois de um dia de chuva pra você ver se o lixo não ajuda.

Proponho uma união dos que, como eu, estão inconformados com a sujeira da cidade. Nossa abordagem precisa ser unificada, porém segmentada por público-alvo. Sempre que um porcalhão jogar sua sujeira, faremos uma rápida análise de seu perfil e agiremos da seguinte forma:

Abordagem revolucionária, para os teimosinhos

Parte 1


- Com licença, moço. Acho que você deixou cair esse papel de coxinha.
- Sim, joguei fora. Essa cidade já tá uma merda mesmo!

Parte 2

[Pega o papel e coloca dentro da camisa dele]
- O que você tá fazendo?
- Jogando lixo no lugar certo: lixo. Vê se para de ser porco pra depois não reclamar que perdeu tudo na enchente e culpar o governo pela sua falta de consciência. Porco nojento!

Abordagem pacífica, para os idosos

- Oi, senhora, tudo bem? Vi que você jogou esse papel no chão... que tal jogar naquela lixeira ali?
- Ah, minha filha, mas tá muito longe...
- Tá vendo aquela nuvem ali?
- Sim, o que tem, minha filha?
- Também está longe. Mas assim que ela começar a jorrar água, vai levar esse seu papelzinho pro Rio Pinheiros, aqui perto. Junto com todo o resto do lixo que as pessoas jogam todos os dias por aí, vai causar um lamaçal imenso nas casas das pessoas, transmitir doenças, causar trânsito, enfim, caos. Não é melhor ir até a lixeira?

Se a resposta for:
- É, você tem razão, minha filha.
[levanta e sai]

Mas, se a resposta for:
- Mas eu sou velha....
[Inicia a 2ª parte da abordagem revolucionária]

Abordagem rápida, para os apressadinhos

[Pega o papel jogado no chão]
- Oi, você deixou cair isso aqui!
[Joga o papel na bolsa/pasta do sujeito sem ele perceber o que é.]

Abordagem descolada, para os “manos”

- E aí, beleza?
- Qualé?
- Tá ligado aquele papelzinho ali? Vi que você jogou agora. Pô, cara, maneira na sujeira aí... a galera ta perdendo tudo nas enchentes, mais lixo só vai piorar a situação...

Se a resposta for:
- Tem razão, mano. Você é truta, vou jogar o papel no lugar certo.
[Levanta e sai]

Mas, se a resposta for:
- Aí, você não é minha mãe pra mandar em mim não, falou?
[Inicia a 2ª parte da abordagem revolucionária – e corre.]

Abordagem Rider, para as crianças

- Ei, menina, sua mãe não te deu educação não? Não pode jogar lixo na rua!
- ...
- Pode pegar o papel e guardar na sua mochila. Quando você vir uma lixeira ou quando chegar em casa é só jogar lá. Dentro do lixo, hein!

Se a resposta for:
- Tá bom, moça.
[Levanta e sai.]

Se a resposta for:
- Vai tomar no c*!

[Taca o Rider na bunda do mal criado. Se a mãe não tacou antes, você estará fazendo um favor pra educação desse mal criado.]

E se você não for bem-sucedido em suas abordagens, segmente mais os perfis, crie novas estratégias. O que vale é acabar com essa palhaçada.

Junte-se a esse movimento hoje mesmo! Por uma São Paulo sem papéis de coxinha.

25 de janeiro de 2010

Cruzou

a tênue linha (maldita linha) que separa a vida e a morte. Deixou uma multidão - bem grande mesmo - de familiares e amigos surpresos, inconformados em ver aquela pessoa alegre e brincalhona sem mais o mesmo brilho no olhar.

Deixou meu coração sem consolo, lembrando dos anos cheios de doces, músicas, pescarias, risadas... Da carroceria da Saveiro vinho, dos balanços especialmente construídos para nós, da piscininha improvisada, das fogueiras de São João, dos fogos de Reveillon... E da calça branca boca de sino que ele não usou esse ano - só esse ano - porque disse, rindo, que não estava servindo mais.

Deixou lembranças alegres como ele. E saudade.

Obrigada por tudo, vô querido. Vê se agora descansa, tá?

24 de janeiro de 2010

A de São Paulo

Em São Paulo, você certamente ouve pelo menos uma vez ao dia pessoas reclamando do trânsito e fazendo planos de mudança para o interior, exterior, ou qualquer outro lugar em que tenham uma vida mais tranquila. Pelo menos 90% delas não cumprem nada.

Difícil explicar porque todo esse caos é tão necessário em nossas vidas. Não há cidades melhores para morar no país? Todo mundo fala do bom planejamento de Curitiba, da qualidade de vida do Rio... por que ninguém vai pra essas cidades e deixa São Paulo um pouco mais vazia, com menos trânsito e menos lotação no transporte público, mais vagas de emprego e menos sujeira?

Porque todo mundo precisa dos salários mais altos pagos em São Paulo - e das empresas que estão aqui pagando esses salários - que, pior de tudo, nem são tão grande coisa assim. E porque, por mais estranho que possa parecer, temos uma verdadeira obsessão por essa cidade bizarra, que convive com Morumbi e Itaquera de modo tão estranho.

Admita, você gosta de contemplar a Av. Paulista de vez em quando enquanto pensa "Olha só, nossa Wall Street, que bonita...", entre uma buzina e outra. Ou de olhar pro Ibirapuera e pensar que ele até que é parecido com o Central Park, que a Ponte Estaiada é a nossa Golden Gate - e o fato de o Pinheiros River não ser a San Francisco Bay é mero detalhe.

São Paulo tem esse quê de primeiro mundo dentro do Brasil, um pedaço que não se encaixa no resto, de tão grande e caótico, esbanjando beleza e pobreza entre tão poucos quilômetros. Um lugar tão miscigenado quanto algumas cidades canadenses, mas que não teve nenhuma estrutura e planejamento para receber todo mundo, já que a ideia era "dar uma esbranquiçada" por aqui com sangue alemão. E aí a gente fica assim, vendo favela e Alphavile (que não é São Paulo, mas é como se fosse), um do lado do outro.

Não vamos embora. Temos orgulho do sangue paulista-italiano-alemão-espanhol-português-árabe. Gostamos de ir pra nossa China Town aos domingos, pra nossa Little Italy nas quintas-feiras... Gostamos da camada de poluição que forma o céu alaranjado do fim de tarde seco, das voltinhas no shopping confortável que nos abriga durante as enchentes...

Não é que gostamos do caos. Mas também não podemos viver sem ele.

É isso aí, São Paulo, 456 anos, nenhuma perspectiva de melhora, e continuamos aí com você. Não mude, viu?

3 de janeiro de 2010

A do trágico, a do cômico

Como estou abandonada em SP desde ontem, condenada aos freelas intermináveis que, quando terminam provisoriamente, me deixam sem nada para fazer, resolvi rever um filme do Woody Allen que adoro: “Melinda e Melinda”.

“Melinda e Melinda” é um dos novos de Allen, porém foi filmado antes de “Scoop” e “Match Point” (só não sei ao certo o ano). Quem diz que o velhinho está perdendo seu toque se surpreende com esse filme, com toda a certeza. Todo o argumento se passa em um jantar entre amigos, quando dois diretores teatrais discutem uma história que um deles ouviu tempos atrás. Um dos diretores acha que a história deve ser contada como uma tragédia; o outro, que deve ser uma comédia. E assim as duas histórias se intercalam, hora com ênfase na parte dramática, hora com ênfase na parte cômica.

De início, essas intercalações são mediadas pela própria narração dos diretores, até para que seja possível acompanhar com mais facilidade que história é qual. Com o tempo, memorizamos os atores de cada história (que são diferentes) e Allen deixa que os cortes tomem conta de cada uma das narrativas.

O que é interessante é que em cada história existe um mesmo fato que toma rumos diferentes quando visto sob outra perspectiva. Essas diferenças no modo como cada coisa é encarada fazem com que cada personagem tenha um destino distinto em cada uma das abordagens. Mas é impossível não notar que a narrativa cômica tem seus momentos trágicos, assim como a narrativa trágica tem seus momentos cômicos.

Já fazia tempo que não assistia a “Melinda e Melinda”. Dentro das limitações de um domingo solitário e cinzento, posso dizer que foi uma ótima escolha. E não deixa de ser um alerta a todos nós, neste começo de ano: em nossas vidas, o trágico e o cômico convivem o tempo todo. A diferença toda está no olhar.

16 de dezembro de 2009

A do amigo secreto


Todo ano é a mesma coisa: circulam os papeizinhos, cada um pega um, e logo já vem um grito:

- Me tirei!

Recolhe-se os papeizinhos e começa tudo de novo, até ninguém estar com um papel com seu próprio nome. Sorte que a tecnologia mais uma vez contribuiu a favor dos problemas do homem: alguém teve a inteligente ideia de fazer o www.amigosecreto.com.br, um site para fazer esse sorteio chato de forma totalmente automática, sem a chance de ter que começar o sorteio novamente cada vez que as pessoas “autosorteiam-se”.

O site, além do sorteio, tem as funções de troca de bilhete anônima, escolha de presentes e – é daí que vem o dinheiro – parcerias com e-commerces para você já procurar o presente numa dessas lojas e comprar ali mesmo, rapidinho.

Apesar de ter achado a solução interessante, tenho que admitir que a graça foi totalmente perdida. Talvez porque eu não vejo mais graça em amigo secreto nenhum, ainda mais quando sou obrigada a escolher o presente e já sei o que vou ganhar.

Mas, uma coisa é certa: melhor ganhar o que pediu do que as famosas adaptações.

- Fernanda, não encontrei o cd do Green Day, mas comprei esse, vê se você gosta.

- ... Twister??????


Ou, ainda:

- Desculpe, Fernanda, esqueci seu presente! Comprei essa lembrancinha na lojinha aqui ao lado e amanhã trago o presente de verdade, tá?

Uma semana depois, ainda não havia presente de verdade. 8 anos depois, ainda não há. E o presente quebra-galho era uma camiseta feia de doer, dada pelo professor que eu mais odiava.

Mas todo ano é a mesma coisa: gente que não vai e pede pra outra pessoa entregar o presente (o que é sempre chatíssimo: se a pessoa não ia, por que entrou no sorteio?), gente que esquece, gente que ganha coisas sem nenhum sentido... Por que, afinal, insistimos nessa brincadeira já tão manjada?

Na minha família, começaram a fazer porque era mais econômico. Cada um só compra um presente e pronto. Mas é claro que nunca funcionou assim. Sempre tem “uma lembrancinha” pra um e pra outro além do presente do amigo secreto.

Já no trabalho, tem sempre alguém que dá a ideia e resolve fazer os cadastros ou papeizinhos. Tem sempre também aquela pessoa ocupadíssima da qual todos ficam dependentes pra poder fazer o sorteio - um porre. E o risco de tirar o chefe, ninguém pensa nisso? E o trabalho de ficar pensando em descrições antes da entrega do presente? A gente logo sabe se a pessoa não pensou em nada:

- O meu amigo secreto eu não conheço muito, mas ele parece ser muito legal!

E todo ano é a mesma coisa: o Fulano vai lá e entrega um vale-presente da loja X pro Beltrano. Os dois tiram uma foto juntos e é isso aí. Nenhum dos dois se conhece, mas já são “amigos secretos”.

A gente sabe que é bobo, que algumas vezes não tem nenhuma sinceridade e que em pelo menos 80% dos casos não vamos sair satisfeitos nem com o amigo, nem com o presente. Mas não tem jeito, Natal sem pelo menos um amigo secreto é só comida, especial da Xuxa e Missa do Galo. Ou só comida.

22 de novembro de 2009

A do caso do vestido

Algum tempo hesitei se deveria escrever sobre o caso Geisy. Temia chover no molhado, fazer com que meu texto fosse só mais um sobre um assunto já saturado. Pensei que isso era inevitável, enfim. E, tendo em vista os últimos acontecimentos sobre a garota, achei pertinente comentá-los aqui.

Quando Geisy foi escurraçada naquele Carandiru-niban, a defendi de verdade a todos os que achavam que ela tinha merecido. Vieram à minha cabeça aquelas acusações infundadas que fazia-se a mulheres estupradas: "Mas, também, ela provocou, não podia estar vestida daquele jeito..." Li com total compreensão os gringos atônitos, tentando explicar o caso: "Apesar de o Brasil ser conhecido pelas vestimentas escassas, nas cidades em que não há praia as jovens costumam se vestir mais casualmente, com jeans e camiseta". Cheguei a pensar que Geisy era uma espécie de Bettie Page, julgada por conservadores em uma época em que usar pouca roupa era imoral e obsceno, com a diferença de que não estamos mais nessa época e de que sediamos a festa mais nua e obscena do mundo, sem o menor choque.

Por que então o vestido de Geisy foi objeto de tamanho bafafá? Em qualquer balada de São Paulo podemos encontrar pessoas vestidas assim. No Rio, encontramos gente vestida com roupas ainda menores (nem decote o vestido da menina tinha!). Mas, depois da indignação, veio a raiva. Geisy no Casseta e Planeta, Geisy dizendo que leiloará o vestido e, a gota d'água: Geisy posando nua. De vítima, ela passou a palhaça.

Não que eu condene quem posa nua. É uma opção. Uma opção que compra apartamentos luxuosos. O problema é toda a publicidade que se fez em torno disso. Geisy é muito jovem e, aqui entre nós, não é a pessoa com o futuro mais brilhante estudando na Uniban (e deixo bem claro que não quero dizer que quem faz Uniban não tem futuro, mas sim que terá que penar muito mais do quem fez uma faculdade de ponta, e isso é fato). Aproveitar-se de uma situação como a que ela vivenciou, tentando fazer do trauma um caça-níquel, é não só ridículo como tão machista quando as pessoas que a escurraçaram. Antes, ela mostrava o corpo como uma opção de liberdade feminina. Agora, ela mostra para ganhar dinheiro.

É verdade que Geisy ainda não confirmou se vai ou não posar nua. Mas tanto a Playboy quanto a Sexy já declararam que irão procurá-la. É questão de tempo (e dinheiro) até ela aceitar. Enquanto isso, ela fica fora da faculdade, mostrando seu nome nos quatro cantos da TV e da internet.

A dura verdade disso tudo é que, ao invés de mostrar ao país o quanto ainda precisamos progredir em direitos femininos, em educação, e principalmente em respeito ao próximo, ela está usando as mesmas velhas armas de qualquer mulher que começa a receber mais atenção. O que ela não percebeu é que sua vida se transformou em um Big Brother universitário, de um só participante, com o pacote completo pós-saída da casa: Faustão, Paparazzo, Playboy, Programa do Jô, Mais Você, Hebe, Superpop, esquecimento.

16 de novembro de 2009

A da volubilidade

Atire a primeira pedra quem não é volúvel neste mundo. Melhor: redija o primeiro comentário ofensivo quem não é portador desse fino traço de volubilidade. Pensando bem, quem acreditar não ser volúvel, que pense melhor no assunto amanhã para ver se não muda de ideia. Porque todos nós mudamos de ideia uma vez ou outra, e sabemos no fundo que não temos muita certeza se essa "vez ou outra" não é corriqueira demais.

Machado de Assis tratou esse tema fielmente em diversos contos. Em "D. Benedita", por exemplo, descreve uma senhora tão indecisa da vida que não consegue completar nenhum plano, fazer uma única resolução. Não estou dizendo que sejamos todos assim. Mas é bem provável que tenhamos fases da vida com idas e vindas.

O vestibular é a mais vil prova de volubilildade a que um ser humano pode se submeter. Escrever em um papelzinho sua opção de "carreira"? Quando prestei vestibular eu mal sabia o significado dessa palavra, quanto mais se estava certa da minha opção! Conheço várias pessoas que mudaram o número da tal "carreira" da Fuvest na fila de inscrição. Uma verdadeira crueldade essa história de vestibular.

"Mas você está falando de decisões importantes", vocês podem argumentar. As decisões importantes são realmente as mais difíceis, mas não são as únicas formas de exercermos nossa volubilidade. A indecisão passa também pelo prato que pedimos no almoço, pelo corte de cabelo, roupa que iremos vestir e por aí vai. O fato é: não ofereça uma lista muito grande de opções a uma pessoa. Fatalmente ela irá surtar.

Mais exemplos de volubilidade? Twitter. Siga uma pessoa qualquer que costume narrar seu dia inteiro lá. Veja quantas vezes ela ficará em dúvida e mudará de ideia. Sim, porque ser volúvel não é apenas ficar em dúvidas, deixo bem claro. É principalmente mudar de rumo sem muito porque, simplesmente porque quer. No Twitter as pessoas adoram expressar suas idas e vindas.

Porém devo ser justa: sendo todos nós volúveis e não existindo nada nesta vida que seja definitivo, a volubilidade não é assim tão ruim. Muito pior seria ter não ter o direito de mudar de ideia, ou ainda ter tão poucas possibilidades que as escolhas limitadas sequer poderiam gerar dúvidas. Imaginem um cardápio de um prato só, uma universidade de um só curso, roupas únicas, cortes de cabelo padronizados... Que tedioso seria o mundo da involubilidade! Pessoas presas em decisões que não tomaram ou que foram obrigadas a tomar. Uma ditadura sem ditadores. Que seria deste post sem a volubilidade, afinal? Um brinde à volubilidade, meus leitores, um brinde ao motor da vida - mais um assunto chato para este blog.

30 de outubro de 2009

A da música e da poesia - parte 2

No último post falei sobre minha percepção sobre o vínculo (no caso, o não-vínculo) entre música e poesia. Levando em consideração os comentários e as discussões que surgiram, achei interessante fazer um novo post para argumentar melhor minha percepção – destaco isso porque não tenho como comprovar minhas referências sobre o assunto e nem é minha intenção trazer tanto rigor ao blog. Tudo o que está aqui tem como base as minhas aulas, minhas leituras e a própria música, seja como ouvinte, seja como compositora.

Coincidentemente, ontem tive uma aula sobre Simbolismo com a professora Simone Rufinoni, especialista em Cruz e Sousa talvez a única lá na USP. Em determinado momento da aula, ao falar sobre os recursos utilizados pelos simbolistas – sinestésicos, principalmente -, ela mencionou como exemplo uma estrofe do poema “Violões que Choram..., do Cruz:

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,

Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Simone definiu a aliteração do V nessa estrofe como utilização da música no poema, já que a intenção dos simbolistas era evocar os sentidos, utilizar recursos do próprio homem para atingir a “transcendência vazia”, que seria, simplificando bem, uma transcendência não baseada no misticismo, nos dogmas religiosos etc.

Porém, em dado momento da aula, ela utilizou outra palavra que me
deu um estalo: musicalidade. A aliteração nessa estrofe sugere, segundo a interpretação mais comum do poema, o som de um violão. Foi quando eu entendi musicalidade e música como conceitos diferentes.

Explico. A música deve ter três elementos básicos: harmonia, melodia e ritmo. A musicalidade seria a utilização de recursos literários que lembrem um desses elementos como apoio para um poema ou outro texto escrito. A lírica usa isso com frequência, e talvez seja por isso que tantos de vocês acharam absurda a minha distinção tão grande entre música e poesia: estamos pensando em conceitos diferentes. Eu vejo a musicalidade como um recurso que a poesia utiliza, mas que não é, nem nunca será, a própria música, pois transpor harmonia e melodia à escrita é impossível – ao contrário do ritmo.

Portanto, no poema de Cruz e Sousa, temos um exemplo do que falei no último post: emulação de sonoridade, que não é harmonia e nem melodia, mas a utilização de um recurso estritamente escrito para criar sonoridade que se destaca foneticamente. Mas não consigo ouvir um violão nessa estrofe. É um nível de abstração muito difícil de ser comprovado objetivamente, por isso muito pessoal.

Sei que existem teóricos que comparam a música com a poesia, mas não os considero referência inquestionável. O próprio professor Luiz Tatit, mencionado em um dos comentários e com quem também tenho aula, analisa semioticamente letras de música ou melodias de canções, mas nunca a música como arte poética. Talvez porque a Semiótica Narrativa não dê conta desse tipo de análise, ou porque esse tipo de análise não tem total rigor comprovado, enfim, é algo passível de maior pesquisa.

Até agora falei da relação entre poesia e música. E da música com a poesia? Aqui entra o que falei no último post. O processo de composição de uma música é totalmente diferente da composição da poesia. Isso porque uma letra de música é feita já pensando na melodia, no cantar. A poesia nunca envolve canto. Pode envolver oralidade, como aquela que encontramos em Grande Sertão: Veredas (praticamente uma prosa poética), mas não envolve canto. Portanto apesar dos elementos em comum que já mencionei antes – ritmo, rima e acento – a música se mantém distante da poesia pelo processo de composição e aplicação do ritmo que determina, necessariamente, a melodia e a harmonia, o que não ocorre na poesia, onde o ritmo está separado desses dois elementos.

Resumindo, diria que, de um lado, temos dois pólos separados: poesia e musicalidade X música. A poesia é a base, a musicalidade pode ser o apoio. Não é a música em si, apenas a utilização de uma emulação de elemento musical na escrita. E, do outro lado, temos que a música não contém poesia por abarcar elementos distintos dos que existem na poética, com apenas alguns recursos em comum: rima, ritmo, acento e, em alguns casos, oralidade, porém utilizando a melodia e a harmonia como a “cola” que une esses recursos.

Por tudo isso, reitero minha afirmação: música é música, poesia é poesia. Pensar em
um pano de fundo que seja comum entre as duas, como a musicalidade e a oralidade, parece-me ser o caminho mais viável. Mas esse pano de fundo não faz com que uma coisa possa ser facilmente transposta para a outra: poesia e música continuam sendo duas artes totalmente diferentes.

26 de outubro de 2009

A da música e da poesia

Eu não consigo entender a relação que as pessoas fazem entre música e poesia. E não é que me falta base teórica: esse semestre mesmo, durante as aulas de Teoria Literária com um especialista em escrita e oralidade, fui obrigada a ouvir, por exemplo, “Navio Negreiro” do Castro Alves na voz do Caetano Veloso com batuques ao fundo. Quem me conhece sabe bem que isso foi um momento bem difícil da minha vida.

Em outra aula do curso, o professor, no ápice de suas conclusões, colocou para tocar o canto do sabiá laranjeira, contando em seguida as sílabas e acentos. “O sabiá canta em redondilha maior!”, exclamou empolgado. Ele tinha acabado de nos mostrar que a "Canção do Exílio" também foi feita em redondilha maior e estava quase com uma lágrima escorrendo pelos olhos, já pensando nas relações que sua descoberta poderia ter com aquelas aves que aqui gorjeiam e não gorjeiam como lá. Eu (junto com toda a turma) não consegui segurar a risada.

O que me parece é que a gente vê música em qualquer poesia que quer ver. E pode ver poesia em música também, mas isso não quer dizer que as duas coisas estejam conectadas. Dizer que alguma coisa é poética, em geral, faz com que a coisa assuma um valor maior do que tem. E para isso cito o exemplo do Chico Buarque: quantas pessoas nesse país não o clamam como o maior poeta brasileiro?

Sem entrar nos méritos da questão, posso dizer seguramente que isso está errado. Tudo bem ficar em dúvida entre Bandeira e Drummond, Bilac e Cruz de Souza (ok, riscarei esses dois últimos), mas Chico não deveria entrar na lista. Ele é um compositor, escreve músicas (e aqui eu mais uma vez me esforço para ser bastante imparcial), e tenho certeza que jamais pensou em publicá-las em um livro. Afinal, ele tem livros publicados, quase todos eles em prosa. Também sem entrar nos pormenores da qualidade desses livros.

Música e poesia têm suas semelhanças, é verdade: os versos, as rimas e o sentimento que abarcam quando lidas ou ouvidas. Mas o propósito com que foram escritas anula qualquer possibilidade de classificá-las de outra maneira. Eu leio poesia e posso até aceitar alguém que a declame, mas música eu canto ou berro, escuto alta nos fones de ouvido ou toco a palhetadas rápidas na minha guitarra. Não consigo imaginar toda essa possibilidade de agressividade sonora na poesia, apenas uma emulação de agressividade que alguns fonemas podem assumir. O que jamais chegará a ser, de fato, um ritmo ou uma nota musical.

No final, algumas coisas ficam bem mais claras: um discurso poético pode ter características de discursos orais. Mas o musical vai bem além da possibilidade de oralidade. O musical é a união do que é interno com o que é externo, enquanto a poesia é a interioridade pura, com toques de exterioridade que não chegam a ser musicais a não ser que você construa, na sua interioridade, uma musicalidade própria da poesia escrita.

Mas esse post ficou filosófico demais. Vamos quebrar o gelo de vez: odeio MPB. Adoro poesia brasileira. Colocar as duas coisas assim, juntas em uma só pessoa, já é suficiente para comprovar minha teoria: música é música, poesia é poesia.

5 de outubro de 2009

A da soja com bacon

Era uma sexta-feira pós-expediente. Tinha desistido da faculdade e estava morrendo de fome. Resolvi passar no Big X Picanha do Shopping Butantã e comprar um hambúrguer vegetariano. Isso mesmo que você leu. O restaurante é Big X Picanha, mas eles têm um hambúrguer de soja e vegetais que, na minha humilde opinião, é o melhor em custo-benefício.


- Oi, eu queria um Vegetariano, por favor.
- Vegetariano? Ok. Nós temos alguns complementos que você pode adicionar. Vc pode colocar bacon!!!
- Não, não, obrigada. Sou vegetariana.
- Aaah, vc é vegetariana mesmo? De verdade? Nossa, mas você não come nenhum tipo de carne???
- Não.
- Nem frango???
- Não, nem peixe - disse eu, já adiantando a resposta da próxima pergunta.
- Nossa, mas há quanto tempo???
- 5 anos.
- Nossa, 5 anos??? Que coisa!! Mas você emagreceu quando parou de comer carne??? - Não... [E o que foi essa pergunta? Por acaso estou magra demais?]
- Nossa, 5 anos... mas, assim, por que? O que te levou a parar???
- Não gosto de carne – imaginando que a explicação completa traria muito mais problema.
- Sério?? Nossa, eu não conseguiria... mas te admiro, viu!!! Nossa, mas não consigo entender, como assim vc parou? Por queee???
- É filosofia – respondi, pensando que não havia mais jeito de tentar encurtar aquela conversa.
- Mas como assim???
- Não concordo com a exploração de animais para nosso benefício.
- Aaah, então vc é igual os indianos???
- Não, eles comem frango. Eu não como nenhum tipo de carne.
- Ah, entendiii... Ai, eu também não gosto de ver bicho sofrer não, viu? Se eu ver matar eu não como.
- ...
- Nossa, que coisa, viu!! Muito legal!! Olha, tá aqui sua notinha. Só aguardar.

Fui meio transtornada para a mesa, com a senha na mão, pensando o que raios tinha sido aquele diálogo. Eu já tinha ouvido muita coisa nos últimos 5 anos. Já até me perguntaram se eu não sentia mais sono porque não como carne. “É, eu tenho uma impressão de que vegetarianos sentem mais sono...”, disse a pessoa. Mas nunca ninguém tinha me oferecido bacon com um hambúrguer vegetariano. Já tinham me perguntado qual era o ponto da “carne”, mas nunca se eu queria um pedaço de porco em cima do hambúrguer de soja.

Eu nunca, também, tinha me sentido tão ET por ser vegetariana. Eles (a mulher do caixa e o cara do lado) me olharam como se eu fosse uma hippie maluca, igual àquela mulher do filme About a Boy. Eu estava passada.

Porém, quando minha senha foi anunciada no painel, o desfecho da conversa foi ainda mais bizarro. Fui pegar minha bandeja rápido, para não dar chances a outros comentários, mas foi inútil:

- Moça, você tem Orkut?

E agora? Quem não tem Orkut nessa vida? Tive que pensar rápido. E a raiva pela conversa anterior parece que tinha me dado esse poder.

- Tenho sim. Me procura lá: Fernanda Rodrigues.
- Fernanda Rodrigues?
- Isso mesmo.
- Tá bom, vou te adicionar!!

Saí com a bandeja na mão dando gargalhadas por dentro. Existem pelo menos umas 3 mil Fernandas Rodrigues no Orkut, e nenhuma delas sou eu, porque meu nome não está assim lá.

E me senti vingada. Não, eu não iria contar minha história de vida vegetariana para a gorda do caixa via scrapbook e não iria deixá-la ver minhas fotos como se eu fosse uma amiga íntima, quando na verdade era apenas alguém que ela via com cara de brócolis. Eu queria fazer um longo discurso sobre o vegetarianismo, dizer que não é maluquice, capricho, muito menos a solução para perder peso. Ao invés disso, contei uma mentirinha. E nunca tinha comido um hambúrguer tão saboroso quanto aquele.

28 de setembro de 2009

A da inveja - mas inveja boa, tá?

Já dizia Platão, em seu livro A República, que existem duas formas diferentes de cobiçar objetos ou qualidades alheias: a inveja e a emulação.

Inveja todos nós sabemos muito bem o que é. Um sujeito cobiça o que ele não pode ter e torce para que o cobiçado afunde na lama, perca tudo o que tem, se torne um desgraçado. Resumindo, funciona mais ou menos assim: comprou uma BMW? Vai bater na primeira volta. Tem um marido bonito? Ele vai te trair, pode ter certeza. Está ganhando um bom salário? Não se preocupe, a demissão vem em seguida. E tudo por causa daquela vizinha gorda que não tira o olho grande de sua bem-sucedida vida.

Emulação é diferente. É muito mais admiração do que maldade. É basicamente uma forma de seguir uma pessoa (dando “follow” ou não), tendo-a como um mestre, um exemplo. Você pode emular um escritor, um músico, um amigo, seus pais ou, para os mais workaholics, seu chefe. Mas você não deseja o mal; ao contrário. Quer que seu emulado seja cada vez mais bonito e inteligente para que você possa, quem sabe, um dia, ser como ele.

Mas e a famosa “inveja boa”, onde entra? Não é contemporânea de Platão, mas é muito mais citada do que ele em nossos dias.

- Ai, meniiiina, que sapato lin-doooo! Deu até inveja!! Mas é inveja boa, viu?

A resposta é simples: “inveja boa” é um eufemismo para a inveja velha e pura. Você quer o sapato, acha que o merece mais do que a outra sirigaita. Aceite, você é uma invejosa e nada vai mudar esse fato.

Mesmo que você tente dizer que sua inveja é boa, por mais flexível que essa língua de Camões possa ser, essa acepção não existe. E o Aurélio, tadinho, não colocou essa definição em suas páginas e nem vai colocar. Quevedo repetiria: “ISTO NO EQUISISTE”.

Portanto, vá tratando de tirar “inveja boa” de seu léxico e de trabalhar um pouco para ter um sapato bonito também antes que, de tão invejosa, você seja a perfeita emulação da vizinha gorda.

21 de setembro de 2009

A do fantástico mundo das redes sociais

Você já viu alguém pessoalmente que parecia bem mais bonito ou bonita no Orkut? Isso parece ser uma situação muito mais frequente do que se imagina. O que acontece é que, tornando-se útil - e, por assim dizer, democrática -, a popularização da internet fez com que as pessoas criassem uma nova forma de máscara: a das redes sociais.

Uso o exemplo da aparência apenas para entrar em questões um pouco mais profundas. Não digo aqui que redes sociais não sejam úteis. É muito legal encontrar no Orkut, Facebook e companhia uma pessoa que você já não vê faz tempo. Mas o que acontece normalmente é a clássica troca de recados:

- Nossa, Fulano, quanto tempo!! E aí, tá fazendo o q?
- Verdade, muito tempo mesmo! Tô trabalhando, estudando... Vamos marcar alguma coisa, hein!

E fim. Provavelmente isso se repetirá no dia do aniversário de um dos dois ad infinitum, ou até que um deles se toque de que esse chove no molhado não levará a nenhum resgate de amizade. Há exceções, é verdade. E apenas nesses casos é que se encaixa a utilidade das redes sociais.

De resto, o que existe é o exibicionismo das fotos, as brigas entre namorados (um termina com o outro e 10 minutos depois somem todas as fotos do casal, o status muda milagrosamente para "single" e um daqueles textos-padrão "Carpe diem" é colocado no perfil), os xavecos frustrados de quem acredita piamente que seja possível começar um relacionamento pela Web - ou de quem está usando isso tudo como última esperança.

No caso do Orkut, salvam-se poucas comunidades onde alguém tenta, em vão, discutir alguma coisa com seriedade. Mas a maioria delas virou, também, um exibicionismo de seus gostos e vontades e um depósito interminável de spam. E no caso do Facebook, só para citar mais um exemplo, não há muita coisa a mais do que fotos, testes e alguns recados. Até porque a proposta não é ir muito além disso mesmo.

O grande problema das redes sociais é quando elas se tornam, como citei no início, a máscara. Sua identidade, sua expressão, suas vontades estão lá. Você, offline, é totalmente diferente. Vira um zumbizinho sem graça que não consegue fazer nada sem antes consultar os seguidores do Twitter. Que prefere falar tudo virtualmente a falar em pessoa, porque a voz democrática da internet é muito mais alta do que a sua voz verdadeira. Alguém que tira uma foto e já está colocando no Orkut; que persegue fielmente a lista de sugestões de amigos do Facebook. E que corta o cabelo e trata logo de atualizar o perfil de todas as redes sociais para mostrar o novo look pra todo mundo. Você fica, enfim, submerso nessa massa amorfa e vazia, e se torna mesmo muito mais interessante quando está online.

É claro que não cabe aqui julgar as aparências - essa primeira impressão apenas se revela curiosa. O conteúdo é que é a questão. Não há nada demais em manter perfis em redes sociais - quem não mantém? O problema, como tudo nessa vida, é o fanatismo. É não ter um centavo no bolso mas economizar pra gastar na lan house, antes que a crise de abstinência tome conta do pobre ser. É não ler um livro sequer, mas ler todos os recados, perfis, álbuns, testes, twitts...

O problema é quando o supérfluo se torna essencial e o essencial se torna supérfluo. O problema é, enfim, quando a rotina milagrosa de sua existência se resume a um frenesi atômico de futilidades. Essa, meu amigo, é a hora exata de desconectar.

16 de setembro de 2009

A da sátira

Já pararam pra pensar no que é uma sátira? Tirando o fato de que ela sempre deixa uma parte em fúria e a outra rindo, ela nada mais é do que a tentativa de manutenção de um status quo.

Explico: a sátira tenta fazer com que nos conformemos com uma situação, embora tenhamos consciência de que ela está errada, fora de lugar. Ou você já viu uma sátira chamando o povo pra revolução? É sempre "o Sarney rouba nosso dinheiro. E nem percebemos", acompanhada de uma ilustração irônica, como um Sarney de máscara de ladrão atacando sua bolsa enquanto você conversa com alguém. Mas não é "o Sarney rouba nosso dinheiro, vamos derrubá-lo e instaurar a ditadura do proletariado para tirar o poder dos bolcheviques e dar todo o poder aos trabalhadores do Brasil."

Isso é triste, porque uma vez que você ri de uma sátira qualquer está ali sujeito a balançar a cabeça e seguir em frente. A sátira não espera outra coisa de você. E você também não espera nada mais dela. Sabe que ela é tão útil quanto os Trending Topics do Twitter: eles estão ali em evidência agora, mas daqui a 5 minutos todo mundo já esqueceu de tudo.

A sátira nos engana porque achamos que ela é um movimento de vanguarda, de contestação. Mas não é! Está ali pra tentar mostrar que não há nada que se possa fazer contra aquilo que ela teoricamente está contestando, e que você é simplesmente uma massa de manobra burra acreditando na liberdade que o sujeito satírico possui, dando risada de uma realidade que não vai mudar. A sátira é o fruto proibido que Eva comeu, todo mundo sabe, todo mundo acha graça e ele continua sendo fruto, continua sendo proibido. Não importa se ela vai comer de novo, e de novo, e de novo...

Pense na sátira como uma diversão aleatória que o destino quis colocar na sua vida. E, para o seu bem, pense nela como uma teoria bem trabalhada que pode salvar seu dia. E balance a cabeça concordando como se nada estivesse acontecendo, porque o satírico, de verdade, está aí: vai, humano bobo, dá risada da sua própria desgraça.

3 de setembro de 2009

A da felicidade brasileira


O site da revista Forbes fez um ranking das cidades mais felizes do mundo. Adivinha quem ficou em primeiro lugar? Rio de Janeiro. Por mais que isso possa parecer piada de mal gosto para os paulistas, a cidade carioca encabeçou a lista na frente de Sidney, Barcelona, Amsterdã, Melbourne, entre outras.

A pesquisa utilizou, como justificativa para a liderança, a imagem de felicidade passada pelo Carnaval, que revela bom humor e "boa vida". Usou também a imagem de jovens dançando alegremente e, como ilustração para o resultado, uma foto do jogador Adriano. Enfim, uma consolidação de todos os elementos mais brasileiros que existem: Carnaval, Mulher e Futebol.

O quão bom isso é para a imagem do Brasil lá fora? Vender que além de termos belezas naturais somos um povo alegre, com boas energias e receptivos é crucial para o nosso turismo, é verdade. Mas a dura realidade é que esse tipo de "constatação" só continua disseminando o que, ao meu ver, nos caracteriza com um povo sem nenhuma seriedade.

Isso é bem perceptível quando você ouve os comentários de gringos sobre nosso país. "Oh, Brazil, beaches, Carnival, Rio, Ronaldo..." E quando você diz que mora em "Sao Paulo" eles dizem que nunca ouviram falar. Aí você explica que a cidade é o coração econômico da América Latina, tem 11 milhões de habitantes e é tão agitada quanto Nova York e eles fazem cara de total surpresa: o país do povo pelado anda de terno também?

Cultivar a imagem da beleza e alegria não nos faz mais capazes de resolver nossos problemas sociais e econômicos. Ao contrário, nos traz outros problemas - turismo sexual, por exemplo. Faz com que o nosso país seja eternamente atrelado a coisas que não engrandecem a ninguém. Que gringo vem ao Brasil para visitar um de nossos museus ou conhecer um pouco da nossa curiosa história?

Ao invés de mostrar que não somos um bando de índios que nasceram para sambar e jogar futebol, reafirmamos tudo isso de sorriso no rosto e biquíni fio dental. E quem, assim como eu, não concordar com a tríade Carnaval-Mulher-Futebol como símbolos da nossa nação, é obrigado a tentar, todos os dias, ser menos brasileiro.

26 de agosto de 2009

A do Dia Internacional da Igualdade Feminina


Vi agora há pouco um comercial do O Boticário bem interessante. Não encontrei no YouTube, mas é mais ou menos assim:

Mulheres em passeata com placas do símbolo feminista
"Na década de 70, as mulheres lutaram por igualdade de direitos."
Mulher executiva andando no meio da multidão na rua, olhando para o relógio.
"Conseguiram. Só que agora perderam algo muito precioso: tempo."

E segue falando que, com apenas 2 minutinhos por dia, você pode cuidar da sua pele.

Pois bem. Hoje é Dia Internacional da Igualdade Feminina. Supreso? Eu também. Não só porque desconhecia a existência dessa data, mas também porque essa igualdade não existe. Mulheres ainda ganham menos que os homens, ocupam menos cargos de chefia, têm que lidar com a dupla jornada de trabalho e volta e meia aturam propaganda ridícula de creminho pra lá e pra cá. Então pra quê um dia desse?

Busquei a origem da data, mas tudo o que consegui encontrar foram artigos em sites políticos ou textos sobre a origem do Dia Internacional da Mulher. E como política não é bem o viés desse blog, acho melhor deixarmos a questão da origem um pouco de lado.

A grande questão é: essa história de que "muito já foi conquistado" é pura balela. O direito ao voto aqui no Brasil foi conquistado pelas mulheres na década de 30. Já se foram mais de 70 anos e nunca tivemos uma presidente mulher, ao contrário de nossos companheiros latinos do Chile. É claro que se uma Marina da Silva da silva fosse eleita não ia dar boa coisa e ela acabaria rechassada pelos patriarcalistas de plantão, aguentando críticas muito mais duras por ser mulher e negra. Mas isso também não vem ao caso. O fato é que continuamos nesse conformismo de "já conquistamos tantas coisas" como se a situação fosse confortável. Eu quero ter um cargo de liderança. E quero ganhar o mesmo que um homem por isso! Eu não quero ser obrigada a trabalhar, cuidar de casa, do marido e dos filhos. Quero dividir.

Acho que um dos maiores enganos do feminismo foi não ter divulgado que a igualdade feminina não era apenas em favor de benefícios, mas de deveres também. Porque vira e mexe aparece algum engraçadinho dizendo que sua namorada se diz feminista, mas não quer pagar a conta do jantar. Nesses casos, a ignorância maior é da mulher que quer tirar proveito de uma ideologia que demorou anos para ter algum impacto na sociedade. E ela simplesmente joga fora quando pensa que o homem tem mesmo que pagar a conta e abrir a porta do carro.

E de vez em quando alguém chega e pergunta: "Então por que você não se alista no exército?" Eu digo: "Porque alistamento obrigatório é ridículo e não deveria existir nem pra homem, nem pra mulher". E o sujeito faz cara de bunda.

Uma coisa é certa: não dá mais para pensar que feminismo é sinônimo de produção independente, lesbianismo ou o raio que o parta. Já era, já foi. Isso foi argumento que as famílias conservadoras da década de 70 usavam para manter as filhas longe do movimento. Feminismo é para todas e todos. Não é uma forma de machismo ao contrário, é simplesmente uma forma de colocar tudo no lugar certo e fazer as coisas serem mais justas. O que é ruim para um, é ruim para uma. O que é bom para um, é bom para uma também. Simples assim.

Agora, voltando à propaganda: já escutei e li muito por aí que o feminismo não deu certo porque fez com que a mulher trabalhasse ainda mais, e que era melhor se tivéssemos ficado só em casa cuidando do marido. O mais triste é que quem escreveu isso era uma jornalista, que não teria seu espaço se a realidade fosse essa que ela estava sonhando.

Essa inversão de valores é muito perigosa, porque coloca em xeque toda a nossa condição, como se tivéssemos culpa dela, como se tivéssemos a procurado. O feminismo não produziu a dupla jornada, a sociedade produziu. Simplesmente porque a igualdade não é plena. Porque homens ainda têm menos obrigações. E porque as mulheres, de modo geral, ainda são criadas de modo que a vaidade se torna uma rotina que deve ser cumprida religiosamente, pois do contrário não há aceitação por parte dessa mesma sociedade.

Mas ninguém é obrigada a aceitar isso. Comece aí na sua casa a fazer os homens ajudarem um pouquinho que seja, uma louça, uma cama para arrumar, um jantar para fazer de vez em quando. E se você não quiser pensar nisso, não se preocupe: o creminho de 2 minutos está aí para resolver seu problema de tempo.

20 de agosto de 2009

A do show do Chuck Berry

Atrás dos vendedores ambulantes de camisetas (e também de alguns cambistas) se escondia uma multidão de pessoas de todas as idades com o mesmo propósito: ver Chuck Berry, nada menos que aquele que criou o rock'n'roll.

Cheguei pouco antes das 21h30, horário marcado para o início do show, e sentei-me à mesa marcada. Sim, mesas, porque Chuck não tem mais 30, mas 82 anos, e seu show não poderia ter a mesma vibração da época em que lançou Roll Over Beethoven – que, aliás, foi a música que abriu o show.

Confesso que quase me arrependi de ter gastado R$ 125,00 (meia-entrada na platéia 1 do Via Funchal) quando ele começou a tocar essa música muito mais lentamente do que aquela Roll Over Beethoven que escuto quase todos os dias vindo para o trabalho. Mas sem nem chegar, o arrependimento foi embora no resto do show. Eu percebi que não estava ali pelas músicas. Eu tinha ido ver uma das poucas lendas da música que ainda estão vivas, e se ele subisse no palco, tocasse o solo da Johnny B. Goode e fosse embora, o show já estaria pago.

A set list foi curta, mas incluiu os melhores clássicos do velhinho: Sweet Little Sixteen, Maybelline (tocada depois que alguém a gritou da platéia), School Day, Carol, My Ding a Ling (com um vocal cheio de graça e risada por parte de Chuck e também da platéia) e, por último, Reelin' and Rockin', quando ele chamou 12 meninas e 2 caras histéricos para dançar ao estilo rockabilly um tanto quanto improvisado ao lado dele.

É claro que não faltaram pedidos de músicas. Um cara atrás de mim gritou "C'est La Vie!!", mas o nome da música é You Never Can Tell – muito boa, por sinal. Uma pena o Chuck não ter entendido.

No final do show a platéia estava sedenta por Johnny B. Goode:

- Do you want to hear Johnny B. Goode? You'll hear Johnny B. Goode - anunciou ele.

E logo no primeiro solo ele percebeu que sua guitarra semiacústica estava desafinada. Começou a afiná-la de ouvido (óbvio), mas os roadies já começaram a correr lá atrás e entregaram a ele uma Fender Stratocaster verdona, linda, que deixou a galera ainda mais agitada.

E então ele tocou tudo aquilo que todos nós já ouvimos tantas vezes, inclusive no filme Back to The Future, com Calvin Klein (ou Marty McFly, interpretado por Michael J. Fox) fazendo a Duck Dance em uma piada sobre Chuck Berry ter feito a música depois que seu primo Marvin o fez ouvir o que estavam tocando no baile Enchantment Under The Sea.

Mas vê-lo pessoalmente, tão perto, fazendo aqueles passinhos agora um pouco mais lentos e tocando o solo mais famoso do rock'n'roll foi indescritível. Uma emoção que só quem pega em uma guitarra ou em algum outro instrumento e tenta tocar um rock'n'roll sabe como é. O cara realmente é aquilo tudo. Uma lenda que nos faz ver nitidamente que, enquanto houver gente se empolgando com o bom e velho verso "But he could play a guitar just like ringing a bell", a boa música não morrerá.

Foto: Terra/Stephan Solon/Via Funchal/Divulgação

18 de agosto de 2009

A da Vida de Merda - parte 1

Conhece aquele site, o Vida de Merda? Eu passo horas lendo e dando risada, todos os dias, do povo coitado que coloca suas histórias lá. Mas parece que Deus me castigou e transformou a minha vida em uma merda.

Tudo começou com a volta às aulas. Enfiei todo o material necessário em minha bolsa gigante (caderno, estojo, netbook pra fazer hora na biblioteca da FFLCH e o resto das coisas de sempre – marmitão, nécessaires, carteira, escova de cabelo, óculos escuros, etc, etc...). Ou seja: a pobre bolsa ficou gordona e a pobre de mim ficou com as costas doendo porque pegou dois [micro]ônibus lotados sem nenhuma alma abençoada pra segurar a bolsa, só porque o tamanho dela era assustador.

Tive um dia normal no trabalho, saindo às 17h em ponto porque não sabia exatamente onde pegar o ônibus pra ir até a USP. Acabei pegando sem grandes dificuldades, porque ele sai exatamente do terminal da Lapa. Fui sentada, mas passando mal por causa do calor e das poucas horas de sono na noite anterior (minha pressão devia estar baixa e eu estava com dor de cabeça. Mas não, não era gripe suína, pode continuar lendo o texto sem risco de contaminação). O trânsito estava ruim nas imediações da Marginal Pinheiros e Rua Alvarenga mas, vá lá, eu prometi ser boa aluna esse semestre, resisti à tentação de descer e pegar outro ônibus pra casa.

Cheguei na FFLCH às 18h e, pasmem, já tinha muita gente por lá. Fui até a lanchonete, comprei uns trequinhos, os engoli e fui pra biblioteca gastar o que o ICMS de vocês pagou em forma de banda larga. Fiquei lá à toa até as 19h15, porque a aula começava às 19h30. Fui até a sala marcada calmamente e avistei de longe um papel grudado na porta. Mas sou meio cega, tive que chegar mais perto pra conseguir ler:

“A professora Maria Clara Paixão não dará aula hoje, 17/08, por motivo de doença. Favor pegar o programa na secretaria do DLCV e fazer sua inscrição no Moodle.”

“Qual é mesmo o nome da minha professora de Filologia? Maria Clara? Gente, é Maria Clara!!”


Pra resumir a tragédia:
• Eu tinha feito todo o sacrifício do mundo, carregado praticamente o mundo nas costas o dia inteiro;
• Passado mal dentro de um ônibus baforento;
• Pegado trânsito;
• Atravessado toda a porcaria do gramado “marijuanento” da FFLCH;
• Comido aquele salgado sem sal na lanchonete...

...pra absolutamente nada.

Que a professora estava doente pra mim estava claro. Eu só não entendi como alguém que conhece o Moodle não conhece E-MAIL! Eu ainda tinha fé que o tal e-mail acadêmico serviria pra alguma coisa algum dia.

Meio desolada, fui até a secretaria do DLCV pegar o programa, enquanto decidia se ficava ou não até as 21h para ter minha segunda aula. “Ah, the hell com a segunda aula, vou pra casa mesmo.” Chegando na secretaria, falei com a... secretária?

- Oi, o programa da Maria Clara...
[Ainda tava tentando me acostumar com aquele nome, me matriculei com ela há um século, quando ainda havia greve e a gripe suína era meramente estrangeira.]

- Ah sim, tá aqui. Não se esquece de matricular no tal do Moo... Moodle.
[Ironia do destino: viro designer instrucional e perco uma aula pelo Moodle.]
- Tá bom. Ela vai ficar sem dar aula um tempo?
[Já tava cogitando a possibilidade de ficar sem ir pra USP nas outras segundas-feiras. Vai que ela tinha pego a gripe...]
- Não, segunda que vem ela já está aqui!
- Ah.
[Cara de decepção]

Resolvi ligar pra casa e ver se alguma alma familiar caridosa podia ir me buscar. Eu moro perto da USP, mas aquilo lá é um buraco. Preciso pegar dois ônibus pra chegar em casa e o segundo é o inferno com 4 rodas. Só consegui falar com o meu pai:

- Ah, eu tô aqui esperando sua mãe, ela está em reunião, não sei que horas vai sair.
- Oba! Vou pra casa de ônibus!
- Me liga quando estiver chegando, a gente pega você no caminho.
- Tá.

Sorte que os ônibus da USP, naquele horário, não são tão cheios, e que o primeiro passou rápido. Sorte também que eu consegui, inexplicavelmente, por causa de um buraco de minhoca, talvez, pegar o segundo ônibus menos cheio. Mesmo assim, demorei meia hora pra percorrer uns 6km. É o milagre do transporte público de São Paulo.

Pra resumir a tragédia II:
• Cheguei em casa às 20h, quando poderia ter chegado às 18h se não tivesse ido completamente à toa pra FFhellCH;
• Comi porcaria quando poderia ter comido comidinha caseira vegetariana;
• Estava com a cabeça estourando e ainda tinha um sapato pra trocar no shopping e um presente de no máximo 100 reais pra comprar mim mesma (acreditem, isso não é tarefa fácil).

Fui cumprir essas duas tarefas certa de que nada mais podia dar errado. E não deu mesmo, encontrei um sapato igual com meu número e uma mochila boazinha pra substituir a bolsa gorda. Era mais cara, mas a essa altura eu gastaria meu salário inteiro pra resolver isso.

Enfim, cheguei em casa feliz por pelo menos uma coisa não ter afundado naquele dia de trevas. Mal sabia o que me aguardava no dia seguinte...

11 de agosto de 2009

A do aniversário

Existem pelo menos quatro fases da vida que marcam as diferentes reações das pessoas quando completam mais um ano de vida. A idade e duração das fases varia de pessoa para pessoa, mas podemos delimitá-las mais ou menos assim:

Fase 1: Empolgação - dos 2 aos 19 anos
Seja pelos presentes, seja por ganhar maturidade ou maioridade, a primeira fase é de frenesi completo em torno do dia do aniversário. A fase inclui contagem regressiva, lembrança constante aos familiares e amigos sobre a data e organização de comemorações com, pelo menos, 1 mês de antecedência. Quando a data chega, quem está na fase 1 acorda feliz da vida esperando os comprimentos, presentes e comemorações.

Fase 2: Aceitação - dos 20 aos 29 anos
Depois que os presentes se tornam mais raros, que as comemorações são iguais todo ano e que a maioridade se revela causa de mais responsabilidade, menos diversão e mais contas, o aniversário é aceito como uma data normal. A pessoa na fase 2 chama os amigos mais próximos para uma "comemoraçãozinha, só para não deixar passar em branco", mas no fundo nem tem vontade de comemorar nada. Sabe que o dia será como outro qualquer e que mais um ano de vida não mudará nada.

Fase 3: Negação - dos 30 aos 79 anos
Chegam as rugas, as preocupações aumentam ainda mais, boas noites de sono são escassas, então quem é que quer fazer aniversário a partir dos 30? Por esses e muitos outros motivos a fase 3 é aquela em que é melhor esquecer o dia do próprio aniversário, dizer a quem perguntar que ele já passou e, aos que decoraram a data, que estará viajando a trabalho e não poderá comemorar nada. No dia de seu aniversário, a pessoa que está na fase 3 chega do trabalho e se tranca em casa para assistir novela, futebol ou um filme qualquer como se nada estivesse acontecendo. Comemoração mesmo só por insistência forte da família ou festinha surpresa.

Fase 4: Redenção - a partir dos 80 anos
Sorte ou resultado de dedicação com a saúde, fazer 80 anos é, para o aniversariante da fase 4, uma baita vitória. E como já não há muito poder de escolha e decisão, os preparativos e a comemoração ficam por conta da família. Mas o aniversariante não se importa muito, pelo contrário, o que vier, a partir daí, é lucro.

As descrições não são 100% precisas, mas posso garantir que na fase 2 os sintomas estão fielmente retratados.

3 de agosto de 2009

A do exame médico

Já que mudei de emprego novamente, tive que me submeter de novo àquela burrocracia chata de sempre: cópias de mil documentos, resgate de fotos 3x4 que normalmente tiro, separo as que preciso e distribuo à família e ao namorado e, a parte mais chata: exame médico admissional.

Nunca entendi a utilidade desses exames. Você chega lá, entrega seu RG, assina a guia, espera te chamarem, entra no consultório, responde algumas perguntas, o cara de avental mede sua pressão, ouve seus batimentos, assina o papel, carimba e te entrega desejando boa sorte, coisa e tal. Qualé, pra quê toda a perda de tempo? Eu tenho medidor de pressão em casa. Se é pelo estetoscópio, tenho certeza de que poderia arranjar um e assinar meu próprio "laudo médico" - leia-se assinalar "apto(a)" com um x.

Porém, como ainda não tenho estetoscópio nem CRM, fui até a Xavier de Toledo fazer meu exame admissional. Era um prédio arrumadinho no meio daquela rua horrososa, bem do lado do metrô Anhangabaú. Fiz o procedimento de sempre: falei ao porteiro que iria até a clínica, entreguei minha CNH e dei um sorrisinho pra webcam na minha frente. Subi e fui até a sala 101, onde ficava a tal clínica.

O chão era branco brilhante, com um cheiro absurdo de Pinho Sol. Na frente da porta, o "guiche 07"(sic), ao qual me dirigi.

- Oi. Vim fazer exame pela Pearson.
- Tem algum papel aí?
- Eles disseram que enviaram por fax.
- Me empresta seu RG?
- Aqui.
- Só aguardar.

Sentei num lugar perto do tal "guiche". Coloquei o fone de volta na orelha e fiquei observando as pessoas entrarem. Eram umas 13h30, parece que os médicos estavam almoçando, porque ninguém era chamado. E a mulher do "guiche 07" ainda tinha que me chamar para assinar a guia, que depois de 20 minutos de espera eu estava torcendo ferozmente para que ela tivesse achado.

Quando ela finalmente me chamou, ainda tive que dizer qual era meu estado civil, onde nasci e qual seria meu cargo. Falei pausadamente:

- Designer ins-tru-ci-o-nal júnior.
- Assine aqui e aqui, por favor.

Conferi e ela tinha escrito o cargo corretamente. Ainda bem, só faltava ter que esperar mais 20 minutos para ela fazer uma nova guia. Assinei, peguei a senha (oh, Jesus, ainda tinha senha!) e voltei ao meu lugar. Não deu 3 minutos um cara gordinho de bigode e avental amarelado estava me chamando.

- Fernanda Rodrigues! Fernanda!

Fui andando rápido atrás dele e entrei no consultório.

- Pode se sentar. Então, você vai trabalhar na Pearson Education do Brasil. Pearson Education. Como designer... designer instru... what the hell is that?
- Designer instrucional.
- Ah, designer instrucional? Hum, designer instrucional. Pearson Education. Escola de inglês, né?
- Não, é uma editora.
- Ah sim, editora! É que tem uma outra que tem uns dicionários, uns livros de inglês, uns dicionários que você vai lá - ele falava e colocava o medidor de pressão no meu braço -, não lembro o nome dessa.
- Longman?
- Isso, Longman!
- É da Pearson também.
- Isso, Longman! E Penguin! Que tem uns livrinhos de inglês bem facinho... isso mesmo, Longman. Então, designer... você vai fazer as capas, colorir, fazer as capas dos livros, né?
- Não, não, vou projetar cursos online.
- Ah, cursos online! Que interessante! Sabe, tem um amigo meu que está aprendendo italiano. Ele está há meses, meses!, na primeira lição do livro. Há meses na primeira lição, veja só que coisa! E não adianta, ele passa um tempão fazendo e não aprende nada. Porque não adianta ter o melhor livro do mundo. Você dá um livro pra ele e pergunta: "gostou desse?", ele fala "não". E desse aqui? "não". Então não adianta, não importa o livro se a pessoa não interesse!
- Uhum. - Já estava ficando sem paciência com o velho.
- As meninas aqui estão fazendo inglês. Você fala inglês, né? - Ele ameaçava riscar a ficha e nunca riscava.
- Uhum.
- Então, elas querem falar também, estão fazendo aula e tudo mais. E outro dia eu perguntei: "estão estudando inglês?" e elas disseram: "não, estamos de férias." Mas imagina, estão de férias! Para aprender inglês você tem que praticar, não importa se está ou não de férias. Tem que ir lá no livro, ver o vocabulário, lembrar, voltar e ir revendo tudo.
- Uhum.
- Porque não adianta, Fernanda, se a pessoa não tiver interesse, não há design que chegue! Não há design que chegue!

O sorrisinho simpático que eu tinha no começo já tinha ido embora.

- Porque inglês engana a gente. Em português a gente tem 4 artigos. Em inglês tem só um! Aí o cara vai lá naquele Yahoo, Yahoo Answers... conhece esse?
- Uhum.
- Então o cara vai lá e fala que quer traduzir "carecão" para o inglês em uma palavra só. Não dá, não é igual português! Que nem, que nem "um amigo". Você não vai traduzir para "one friend", numeral. Tem que ser "a friend", mas o pessoal não entende. E se não tem interesse em aprender, não tem, não tem design que chegue!
- É. - Impaciente, já pegando a bolsa na outra cadeira.
- Então tá aqui, Fernanda, vou assinar aqui, porque o importante é você se sentir bem, né? O importante é se sentir bem e ir em frente. E você eu tenho certeza que está bem, né?
- Sim! Sim, claro!
- Então é isso aí. Esse papel vai para a Pearson e você pode entregar para eles e dizer que está tudo bem. Porque o importante é você se sentir bem, o resto é resto. Então boa sorte na Pearson!
- Obrigada, doutor. - Praticamente arranquei o papel da mão dele.

Nem acreditei! Um exame admissional com 20 minutos de duração! Sem perguntas sobre a última vez em que fiquei menstruada, meu peso e altura, nada disso. Nem sei se minha pressão estava normal, porque ele mediu enquanto falava e sequer parou um minuto. Incrível como médicos podem ficar realmente carentes.

Da próxima vez vou entrar com cara de bem (mais) mau-humorada e adiantar que estou com pressa e que parei o carro na contra-mão. Claro que ele iria fazer alguma piadinha sobre meu tamanho e o fato de já ter habilitação, mas seria melhor do que aguentar todo o papo sobre o cara que não consegue aprender italiano.

30 de julho de 2009

A da oportunidade


"A vida é feita de oportunidades". Atire a primeira pedra quem nunca se identificou com essa frase clichê, mas tão verdadeira. Oportunidade é o que move todos os dias de nossa vida.

Quer ver como é verdade? Você provavelmente começou a andar por causa de uma oportunidade - de alcançar a chupeta que caiu no chão, de chamar a atenção de seus pais ou mesmo de fazer alguma coisa diferente em seu dia-a-dia maçante. Andar foi a oportunidade que você encontrou para mudar alguma coisa.

Foi também em busca de uma oportunidade que você foi se sentar ao lado daquela pessoa, entrou naquele grupo de Feira de Ciências ou foi viajar para aquele lugar. E, por que não, foi para ter uma nova oportunidade que você saiu correndo do seu atual trabalho para fazer uma entrevista.

Da oportunidade nasceu a América - Canadá, Estados Unidos, Brasil e todo o resto. Foi também por causa dessa palavra maldita que Hitler matou milhares de judeus e que milhares de pessoas passam fome na África.

Há pessoas que arriscam a vida por uma oportunidade, atravessando fronteiras, viajando pra lugares isolados ou lançando-se em alguma favela do Rio de Janeiro. Com 18 anos, você gastou algo em torno de R$ 100,00 para pagar taxas e mais taxas de vestibular - e, nesse caso, o investimento pode ter sido bom ou ruim, mas isso é o que menos importa.

O fato é que eu não estaria aqui sem minha oportunidade em vista, nem você sem a sua. A primeira é a tentativa de escrever algo útil, a segunda a de ler algo que lhe agrade ou desagrade (para que você tenha o que comentar). E uma coisa é certa: nenhuma oportunidade é nula, sem resultado. Se for, não é oportunidade. É perda de tempo.