5 de julho de 2010
A do sorriso multiuso
A: Desculpe, mas infelizmente você não tem o perfil que estamos procurando.
B: [Responde com o sorriso multiuso querendo dizer “Não faz mal, nem queria trabalhar nessa espelunca mesmo...”]
A: Feliz aniversário! Tá aqui seu presente.
B: [Abre o pacote]
A: Gostou? Achei a sua cara!
B: [Faz o sorriso multiuso que, nesse caso, quer dizer “Você acha que tenho cara de merda?”]
No mesmo dia, pude provar minha teoria sobre as multiutilizações do sorriso em uma nova ocasião: conversinhas de ônibus.
Situação: B decidiu não ligar seu mp3 player porque já ia descer do ônibus, mas sentou na janela para ficar apreciando a bela vista do Bairro do Limão. Eis que se senta ao seu lado um certo moço A, com sobrancelhas de taturana e camiseta do Palmeiras. É importante notar que B estava usando vestido preto, cinto vermelho e meia-calça de bolinhas, porque B tem muito bom gosto.
A: Desculpa perguntar, mas, qual é o seu estilo?
B: Ãhn?
A: Qual é o seu estilo? Que música você curte?
B: É... [tentando pensar em que resposta dar para terminar aquela conversa] Rock.
A: Você é emo?
B: Não!
A: Mas que tipo de rock você curte? Pesado ou romântico?
B: [Como explicar???] Pesado.
A: Ah, da hora. Tem uns que não dá nem pra entender né? Mas, tipo, Metallica é mó da hora.
B: [Continua olhando pela janela]
A: Você não curte?
B: Não.
A: Então você curte o que?
B: [Eu devia dizer que curto a banda do meu namorado campeão de luta livre] Ramones.
A: Ramones? Da hora. Red Hot Chilli Peppers que é da hora também. Meu pai que gostava.
B: [Olha para as unhas]
A: Menina com esse seu estilo fica mó linda. Pena que a maioria é metida.
B: [Faz o sorriso multiuso]
A: Você não gosta muito de conversar com estranhos, né?
B: Não muito.
A: Percebi.
E fim da conversa.
Vejam como o sorriso multiuso opera milagres. Quando parecia não haver mais saída, você vira pro sujeito, mantém sua boca fechada e levemente curvada, mentaliza o que quer dizer e POFT, o sujeito entende a mensagem: “Não quero conversar com você, me deixe em paz”.
Desde então decidi adotar o sorriso multiuso de vez. Já é quase uma filosofia de vida, e ele está praticamente me transformando em uma mestra zen: não me estresso, não preciso me preocupar com palavras gentis para dizer o que penso sem magoar os outros. O sorriso multiuso simplesmente faz todo o trabalho por mim.
Tava pensando até em montar a Congregação dos Sorrinistas, mas é melhor manter o segredo do sorriso multiuso bem guardado. O mundo já é cheio de pilantras, imagine se esse segredo cai em mãos maldosas. Não, vamos esquecer esse sorriso e buscar outra saída para situações embaraçosas.
"Ah, peraí, meu celular tá tocando. Alô?"
25 de abril de 2010
A do Alice
Com Alice no País das Maravilhas, para a minha surpresa, não foi diferente. Esperei bastante tempo pelo filme. E, do anúncio de uma provável produção em parceria com a Disney até as datas de estreia, fiquei apreensiva, pensando se esse não seria mais um filme com potencial totalmente estragado pelo excesso de efeitos especiais, como aconteceu com Sweeney Todd. Mas o filme me supreendeu de verdade.
Destaco a atuação de Johnny Depp, que, apesar de lembrar muito o Willy Wonka também dirigido por Burton anteriormente, deu alma a um Chapeleiro Maluco que eu sempre achei bem sem-graça no desenho da Disney. Helena Bonham Carter também foi fantástica, mas o grande campeão só pode ser o meu querido George McFly, Crispin Glover. Os três são mesmo os atores perfeitos para o estilo de Burton, e acho até que o Glover demorou demais para aparecer em um filme dele.
A parte chata do filme fica por conta da Rainha Branca, Anne Hathaway. Mas, sei que isso é culpa de Lewis Carroll, não de Burton. Como sempre acontece nas histórias infantis, as vilãs são sempre muito mais interessantes que as mocinhas.
Mas talvez o maior mérito de Burton foi ter feito, mais uma vez, uma adaptação não-fiel ao livro - aliás, uma mistura de dois livros - tão bem feita. A história não se perde no meio do caminho, fluiu muito bem do começo ao fim, e mostrou uma Alice cheia de espírito e vontades próprias que jamais veríamos no desenho da Disney.
Já a trilha sonora, como não podia deixar de ser estando a cargo de Danny Elfman, foi ótima. Não temos nem como questionar suas ótimas composições, mas acredito que de tanto fazer as trilhas para filmes do Burton fica fácil reconhecer nelas um pouco de cada filme que ele já fez. Alice, ao meu ver, foi uma mistura de Edward Mãos de Tesoura, principalmente nas partes com coro, com Batman, nas partes mais tensas, de ação. Ponto para ele, porque as duas trilhas são ótimas mesmo.
O ponto baixo, devo dizer, são os créditos: o temido momento em que a música-tema, de Avril Lavigne, surge em nossos ouvidos. Tratei logo de sair correndo do cinema, como boa brasileira, mas tive que esperar meu namorado cinéfilo terminar de ler os créditos, o que resultou em uma tremenda dor de cabeça por escutar aquela menina berrando por mais de 2 minutos.
Mas isso é só um detalhe perto de tudo o que o filme foi. A parceria com a Disney tem suas desvantagens, é verdade, pois os cinemas estão super lotados à noite pelo fato de as seções do dia serem todas dubladas. Entretanto, acho que a divulgação do filme é justa para Burton, um diretor sempre tão renegado de fama e verbas para grandes produções. Ele merece destaque, e vê-lo com Alice, agora, me proporcionou um alívio tremendo depois do fracassado Sweeney Todd. Alice é, afinal, um filme que nenhum fã de Burton e nenhum fã de Carroll pode perder.
4 de abril de 2010
A dos bêbados
- Nossa, tô bêbada pra &%$*!! Mas eu acho que Hitler fez um traba...trabalho mal feito. Ele não exter...terminou as coisas direito.
Porque os bêbados sempre se sentem no direito de dizer e fazer o que bem querem. Ainda mais se o bêbado em questão tiver razões psicológicas para se embebedar. E quando digo razões psicológicas, quero dizer razões amorosas, ou simplesmente amorososo-cornísticas.
- Bebo MEEEESSSSMO, sabe por quê? Porque sou COOOORRRR-NA, ninguém me QUEEEER!!! Se eu beber pelo menos fico mais bonita.
Mas não, não podemos reclamar. Nossa sociedade, mesmo com toda a sua superioridade perante às demais, permitiu que substâncias como o álcool, só para começar com as lícitas, fossem utilizadas. O que iremos argumentar, então? Vamos dizer que o álcool só pode ser ingerido por pessoas responsáveis, cujo poder intelectual seja superior à vontade de passar para situações ridículas.
- Ô DOMENIIIIICHE! DOMENIIIICHE!! Eu sei o que você fez na Páscoa passada, DOMENIIIICHE! Vou contar tudo pro seu namorado, DOMENIIIICHE!
O problema é que mesmo que você seja uma pessoa responsável e com poder intelectual superior à sua vontade de passar por situações ridículas, vem um bêbado e faz você passar pelo ridículo de qualquer forma. Aliás, quanto mais discreto voce quiser ser do lado de um bêbado, mais ele irá te perturbar.
Fazer o que, então? Mandamos prender? Mas eles não estão cometendo nenhum crime. Bebem o que está sendo vendido aí, livremente. E você pode querer usar as mesmas substâncias que o bêbado, com mais responsalidade, sem ser necessariamente um mal à sociedade.
Colocar o bêbado em extinção? Mas eles se multiplicam a cada bebedeira! Reproduzem-se com fertilidade sempre colocando a própria bebida como desculpa para seus atos, adúlteros ou não. Além do mais, uma caça aos bêbados hoje poderia gerar uma comemoração tão grande amanhã que seria necessário repetir a caçada várias e várias vezes, até que o completo extermínio da raça humana fosse atingido.
Então não nos resta outra alternativa: fujamos da festa e deixemos os bêbados para trás enquanto há tempo. Inconvenientes como gritos de fúria podem acontecer, mas é para o bem de todos. No final, o que importa é que eles sumam de nossas vistas, com seus hálitos desagradáveis e vozes esganiçadas. Vamos deixá-los soltos, mas sozinhos, condenados à prisão perpétua de sua solidão. Um brinde aos bêbados incovenientes que descansam em paz, longe de nós - saúde.
28 de março de 2010
A da igualdade, queima de sutiãs e outras anedotas
Sobre um assunto parecido fala o podcast da WNYC, relembrando os 40 anos de um processo movido por funcionárias da própria Newsweek. Na época, todas elas eram restritas à área de pesquisa, a mais baixa da revista, enquanto os homens ocupavam, além dos cargos mais altos, também as posições de repórteres e redatores. Depois de dois processos, elas conseguiram conquistar os cargos antes inalcançáveis.
Ainda hoje, nem tudo são flores na Newsweek. No podcast, uma redatora sênior mostra que das mais de 120 matérias de capa feitas, apenas 6 foram escritas por mulheres e, das 6, 3 foram co-escritas por homens, então apenas 3 são de completa autoria de repórteres e redatoras do sexo feminino.
O podcast serviu para que eu visse que a realidade lá nos EUA não é diferente da daqui do Brasil, como é de se imaginar. Nas duas últimas empresas em que trabalhei, os homens ocupavam os cargos de gerência para cima, com uma ou duas exceções. A maioria das mulheres gestoras eram coordenadoras ou supervisoras. Até o RH, área normalmente "feminina", era gerenciada por um homem.
Com sorte, porém, vejo que minha atual empresa está no caminho certo: Marjorie Scardino, a CEO global da Pearson, é apontada pela Forbes como a 17ª mulher mais poderosa do mundo. Uma mulher no comando de uma grande multinacional. Na Pearson Brasil, temos diretoras mulheres, inclusive na área Financeira e de TI, onde normalmente concentram-se homens. Temos mais editoras do que editores, mais designers instrucionais mulheres do que designers instrucionais homens etc. e tal. Mas será que essas diretoras, ou mesmo a poderosa Marjorie estão ganhando o mesmo do que ganhariam se fossem homens? Essa é a pergunta que não sei responder, porque não sei quanto elas ganham, obviamente.
No artigo da Newsweek, Jesse comenta que sua mãe pertenceu à 2ª geração de feministas: a que tentou igualar os sexos não apenas em direitos - como fez a 1ª geração, conquistando o direito ao voto, por exemplo - mas também em aparência. Era a geração que considerava que os gêneros eram apenas uma questão de criação, de berço, e que isso poderia ser neutralizado, como ela tentou fazer com a filha. É provável, mas pode ser que eu esteja bem enganada, que a frase de Simone Beauvoir, "Não se nasce mulher, torna-se mulher", sobre a qual comentei no post anterior, tenha sido inspiração para essa 2ª geração de feministas.
Felizmente, pertencemos à 3ª geração: a que admite a convivência do salto alto e da maquiagem com a inteligência e perspicácia necessárias para conquistar posições, salários e condições ainda não conquistados com o mesmo sucesso do direito ao voto. Apesar disso, é comum, e já foi tema de posts anteriores, a menção de frases como "Não sou feminista, sou feminina". Por que, se essa é uma questão tão anterior à geração das mulheres que mencionam esse tipo de pérola?
Mais uma navegada no blog feminista da Newsweek me surpreende: a famosa queimada de sutiãs jamais ocorreu. O que aconteceu foi que haveria uma fogueira "cerimonial" na frente do concurso de Miss America 1968 em Atlantic City, mas, não havendo permissão para a tal fogueira, as manifestantes decidiram jogar alguns símbolos opressores - como sapatos de salto alto, maquiagem e sutiãs - na chamada "Freedom Trash Can". Um jornalista do New York Post, que não sabia que a fogueira tinha sido cancelada, acabou escrevendo:
"Lighting a match to a draft card has become a standard gambit of protests groups in recent years, but something new is to go up in flames this Saturday. Would you believe a bra burning?"Ou seja, sutiãs nunca foram queimados por nenhuma feminista, apenas jogados no lixo como protesto a um concurso de Miss America, que todos sabemos tratar-se da situação mais ridícula já inventada e que ainda acontece todos os anos.
Nossas bases, portanto, estão todas bagunçadas: passaram-se já 2 gerações e ainda o associamos a um evento que jamais ocorreu. Continuamos ouvindo frases ridículas e sem sentido sobre a igualdade, como se hoje em dia alguma mulher declaradamente feminista neste mundo tivesse a obrigação de se transformar em um homem para aderir ao movimento. E ainda aturamos uma indústria do padrão de beleza que vai dos concursos de Miss, passando pelos reality shows e chegando à Playboy.
A saída? Darwin aponta. A seleção natural é eminente: sobreviverão aquelas cujo poder for maior do que o limite de cartão de crédito do marido. Falo de poder intelectual, é claro. As demais, podem continuar renegadas por alguns anos às posições mais inferiores da cadeia feminina, posando nuas e sustentando o mercado de revistas femininas e programas vespertinos da TV. Mas elas desaparecem, eventualmente. Felizmente.
8 de março de 2010
A do Dia Internacional da Mulher
Já fiz diversos posts comemorativos ao Dia Internacional da Mulher nos mais diversos blogs dessa vida, mas nunca deixo de fazer outro porque considero a data realmente importante, apesar da grande banalização.
Explico. Houve o tempo em que a TV se ocupava de belas entrevistas, fornecidas pelas mais variadas donas de casa desse país, comentando como “cuidar da casa, do marido e dos filhos é tão difícil quanto trabalhar fora”. Nessa mesma época o varejo fazia ótimas promoções de panelas, eletrodomésticos e móveis de cozinha.
Hoje conquistamos um espaço mais realista nessa “mídia comemorativa”. Todos já têm plena consciência de que pouquíssimas mulheres são meras donas de casa (sem querer desmerecer o trabalho delas, mas, come on...). As propagandas têm toques de independência, reconhecem a complicação que é sair correndo de um lado pro outro com trabalho, marido, filhos, casa etc e tal.
Mas, infelizmente, ainda existe aquela pitada de sexismo quando se referem à mulher que precisa ir ao shopping e ao salão de beleza com frequência e não consegue em meio às suas atividades diárias.
Um momento de reflexão, por favor. Shopping? Salão de beleza? Estou para conhecer a mãe de família que tem tempo e que cogita gastar tanto dinheiro pra manter-se em atividades desse tipo com frequência. Pior ainda é a imagem da mulher que sequestra o cartão de crédito do marido para fazer “comprinhas”. Se vocês conhecerem alguém assim por favor me avisem: essa laranjinha podre precisa receber umas lições de Simone de Beauvoir.
Porém, a importância da data é justamente a reflexão. Onde chegamos? Onde queremos chegar? É suficiente ter liberdade para trabalhar nos mesmos cargos que os homens?
Uma rápida pesquisa no Salariômetro já nos mostra que não. Mesmos cargos, salários diferentes. E o tempo de licença maternidade e todas as injustiças que as mulheres acabam sofrendo nas empresas porque precisam cuidar de seu recém-nascido? Tudo isso precisa ser pensado. Sufrágio feminino não é apenas o direito ao voto e ao trabalho. O verdadeiro sufrágio é o respeito e a plena igualdade de direitos que só a consciência de cada um(a) poderá nos oferecer.
Enquanto isso, esteja a par de seus direitos como mulher e procure exercê-los sem querer tirar vantagem de tudo o que puder. Abra os olhos para slogans como “Independente sem deixar de ser mulher” – ninguém deixa de ser mulher se tentar ser independente. E, aliás, como dizia Beauvoir, “Não se nasce mulher, torna-se mulher” – mas isso fica para um outro post, quem sabe.
11 de fevereiro de 2010
A do lixo
Mas, pera aí, porque o gari é obrigado a varrer tanta coisa assim? Com certeza não é porque ele pertence ao grau mais baixo da escala social. O normal seria ele ter apenas folhas na pá. Folhas das árvores de São Paulo...
...uhum.
O que acontece é que as pessoas adooooram falar mal do Kassab ou de quem for o prefeito (menos da Marta, “porque ela fez o corredor e o bilhete único”) e culpá-lo pelas enchentes dos últimos 918767689076 dias, mas se esquecem de todas as porcarias que jogam por aí. Já vi gente espremendo meio mundo dentro do ônibus só pra alcançar uma janela e jogar o papel de bala pra fora. Cadê os bolsos dessa pessoa? Não era mais fácil se espremer pra alcançar o lixo do ônibus?
Não que o lixo seja a única causa das enchentes. São Paulo é totalmente despreparada para tanta água em tanto asfalto, estamos cansados de saber. Mas dá uma olhada nas margens do Tietê ou do Pinheiros depois de um dia de chuva pra você ver se o lixo não ajuda.
Proponho uma união dos que, como eu, estão inconformados com a sujeira da cidade. Nossa abordagem precisa ser unificada, porém segmentada por público-alvo. Sempre que um porcalhão jogar sua sujeira, faremos uma rápida análise de seu perfil e agiremos da seguinte forma:
Abordagem revolucionária, para os teimosinhos
Parte 1
- Com licença, moço. Acho que você deixou cair esse papel de coxinha.
- Sim, joguei fora. Essa cidade já tá uma merda mesmo!
Parte 2
[Pega o papel e coloca dentro da camisa dele]
- O que você tá fazendo?
- Jogando lixo no lugar certo: lixo. Vê se para de ser porco pra depois não reclamar que perdeu tudo na enchente e culpar o governo pela sua falta de consciência. Porco nojento!
Abordagem pacífica, para os idosos
- Oi, senhora, tudo bem? Vi que você jogou esse papel no chão... que tal jogar naquela lixeira ali?
- Ah, minha filha, mas tá muito longe...
- Tá vendo aquela nuvem ali?
- Sim, o que tem, minha filha?
- Também está longe. Mas assim que ela começar a jorrar água, vai levar esse seu papelzinho pro Rio Pinheiros, aqui perto. Junto com todo o resto do lixo que as pessoas jogam todos os dias por aí, vai causar um lamaçal imenso nas casas das pessoas, transmitir doenças, causar trânsito, enfim, caos. Não é melhor ir até a lixeira?
Se a resposta for:
- É, você tem razão, minha filha.
[levanta e sai]
Mas, se a resposta for:
- Mas eu sou velha....
[Inicia a 2ª parte da abordagem revolucionária]
Abordagem rápida, para os apressadinhos
[Pega o papel jogado no chão]
- Oi, você deixou cair isso aqui!
[Joga o papel na bolsa/pasta do sujeito sem ele perceber o que é.]
Abordagem descolada, para os “manos”
- E aí, beleza?
- Qualé?
- Tá ligado aquele papelzinho ali? Vi que você jogou agora. Pô, cara, maneira na sujeira aí... a galera ta perdendo tudo nas enchentes, mais lixo só vai piorar a situação...
Se a resposta for:
- Tem razão, mano. Você é truta, vou jogar o papel no lugar certo.
[Levanta e sai]
Mas, se a resposta for:
- Aí, você não é minha mãe pra mandar em mim não, falou?
[Inicia a 2ª parte da abordagem revolucionária – e corre.]
Abordagem Rider, para as crianças
- Ei, menina, sua mãe não te deu educação não? Não pode jogar lixo na rua!
- ...
- Pode pegar o papel e guardar na sua mochila. Quando você vir uma lixeira ou quando chegar em casa é só jogar lá. Dentro do lixo, hein!
Se a resposta for:
- Tá bom, moça.
[Levanta e sai.]
Se a resposta for:
- Vai tomar no c*!
[Taca o Rider na bunda do mal criado. Se a mãe não tacou antes, você estará fazendo um favor pra educação desse mal criado.]
E se você não for bem-sucedido em suas abordagens, segmente mais os perfis, crie novas estratégias. O que vale é acabar com essa palhaçada.
Junte-se a esse movimento hoje mesmo! Por uma São Paulo sem papéis de coxinha.
25 de janeiro de 2010
Cruzou
Deixou meu coração sem consolo, lembrando dos anos cheios de doces, músicas, pescarias, risadas... Da carroceria da Saveiro vinho, dos balanços especialmente construídos para nós, da piscininha improvisada, das fogueiras de São João, dos fogos de Reveillon... E da calça branca boca de sino que ele não usou esse ano - só esse ano - porque disse, rindo, que não estava servindo mais.
Deixou lembranças alegres como ele. E saudade.
Obrigada por tudo, vô querido. Vê se agora descansa, tá?
24 de janeiro de 2010
A de São Paulo
Difícil explicar porque todo esse caos é tão necessário em nossas vidas. Não há cidades melhores para morar no país? Todo mundo fala do bom planejamento de Curitiba, da qualidade de vida do Rio... por que ninguém vai pra essas cidades e deixa São Paulo um pouco mais vazia, com menos trânsito e menos lotação no transporte público, mais vagas de emprego e menos sujeira?
Porque todo mundo precisa dos salários mais altos pagos em São Paulo - e das empresas que estão aqui pagando esses salários - que, pior de tudo, nem são tão grande coisa assim. E porque, por mais estranho que possa parecer, temos uma verdadeira obsessão por essa cidade bizarra, que convive com Morumbi e Itaquera de modo tão estranho.
Admita, você gosta de contemplar a Av. Paulista de vez em quando enquanto pensa "Olha só, nossa Wall Street, que bonita...", entre uma buzina e outra. Ou de olhar pro Ibirapuera e pensar que ele até que é parecido com o Central Park, que a Ponte Estaiada é a nossa Golden Gate - e o fato de o Pinheiros River não ser a San Francisco Bay é mero detalhe.
São Paulo tem esse quê de primeiro mundo dentro do Brasil, um pedaço que não se encaixa no resto, de tão grande e caótico, esbanjando beleza e pobreza entre tão poucos quilômetros. Um lugar tão miscigenado quanto algumas cidades canadenses, mas que não teve nenhuma estrutura e planejamento para receber todo mundo, já que a ideia era "dar uma esbranquiçada" por aqui com sangue alemão. E aí a gente fica assim, vendo favela e Alphavile (que não é São Paulo, mas é como se fosse), um do lado do outro.
Não vamos embora. Temos orgulho do sangue paulista-italiano-alemão-espanhol-português-árabe. Gostamos de ir pra nossa China Town aos domingos, pra nossa Little Italy nas quintas-feiras... Gostamos da camada de poluição que forma o céu alaranjado do fim de tarde seco, das voltinhas no shopping confortável que nos abriga durante as enchentes...
Não é que gostamos do caos. Mas também não podemos viver sem ele.
É isso aí, São Paulo, 456 anos, nenhuma perspectiva de melhora, e continuamos aí com você. Não mude, viu?
3 de janeiro de 2010
A do trágico, a do cômico
“Melinda e Melinda” é um dos novos de Allen, porém foi filmado antes de “Scoop” e “Match Point” (só não sei ao certo o ano). Quem diz que o velhinho está perdendo seu toque se surpreende com esse filme, com toda a certeza. Todo o argumento se passa em um jantar entre amigos, quando dois diretores teatrais discutem uma história que um deles ouviu tempos atrás. Um dos diretores acha que a história deve ser contada como uma tragédia; o outro, que deve ser uma comédia. E assim as duas histórias se intercalam, hora com ênfase na parte dramática, hora com ênfase na parte cômica.
De início, essas intercalações são mediadas pela própria narração dos diretores, até para que seja possível acompanhar com mais facilidade que história é qual. Com o tempo, memorizamos os atores de cada história (que são diferentes) e Allen deixa que os cortes tomem conta de cada uma das narrativas.
O que é interessante é que em cada história existe um mesmo fato que toma rumos diferentes quando visto sob outra perspectiva. Essas diferenças no modo como cada coisa é encarada fazem com que cada personagem tenha um destino distinto em cada uma das abordagens. Mas é impossível não notar que a narrativa cômica tem seus momentos trágicos, assim como a narrativa trágica tem seus momentos cômicos.
Já fazia tempo que não assistia a “Melinda e Melinda”. Dentro das limitações de um domingo solitário e cinzento, posso dizer que foi uma ótima escolha. E não deixa de ser um alerta a todos nós, neste começo de ano: em nossas vidas, o trágico e o cômico convivem o tempo todo. A diferença toda está no olhar.
16 de dezembro de 2009
A do amigo secreto

Todo ano é a mesma coisa: circulam os papeizinhos, cada um pega um, e logo já vem um grito:
- Me tirei!
Recolhe-se os papeizinhos e começa tudo de novo, até ninguém estar com um papel com seu próprio nome. Sorte que a tecnologia mais uma vez contribuiu a favor dos problemas do homem: alguém teve a inteligente ideia de fazer o www.amigosecreto.com.br, um site para fazer esse sorteio chato de forma totalmente automática, sem a chance de ter que começar o sorteio novamente cada vez que as pessoas “autosorteiam-se”.
O site, além do sorteio, tem as funções de troca de bilhete anônima, escolha de presentes e – é daí que vem o dinheiro – parcerias com e-commerces para você já procurar o presente numa dessas lojas e comprar ali mesmo, rapidinho.
Apesar de ter achado a solução interessante, tenho que admitir que a graça foi totalmente perdida. Talvez porque eu não vejo mais graça em amigo secreto nenhum, ainda mais quando sou obrigada a escolher o presente e já sei o que vou ganhar.
Mas, uma coisa é certa: melhor ganhar o que pediu do que as famosas adaptações.
- Fernanda, não encontrei o cd do Green Day, mas comprei esse, vê se você gosta.
- ... Twister??????
Ou, ainda:
- Desculpe, Fernanda, esqueci seu presente! Comprei essa lembrancinha na lojinha aqui ao lado e amanhã trago o presente de verdade, tá?
Uma semana depois, ainda não havia presente de verdade. 8 anos depois, ainda não há. E o presente quebra-galho era uma camiseta feia de doer, dada pelo professor que eu mais odiava.
Mas todo ano é a mesma coisa: gente que não vai e pede pra outra pessoa entregar o presente (o que é sempre chatíssimo: se a pessoa não ia, por que entrou no sorteio?), gente que esquece, gente que ganha coisas sem nenhum sentido... Por que, afinal, insistimos nessa brincadeira já tão manjada?
Na minha família, começaram a fazer porque era mais econômico. Cada um só compra um presente e pronto. Mas é claro que nunca funcionou assim. Sempre tem “uma lembrancinha” pra um e pra outro além do presente do amigo secreto.
Já no trabalho, tem sempre alguém que dá a ideia e resolve fazer os cadastros ou papeizinhos. Tem sempre também aquela pessoa ocupadíssima da qual todos ficam dependentes pra poder fazer o sorteio - um porre. E o risco de tirar o chefe, ninguém pensa nisso? E o trabalho de ficar pensando em descrições antes da entrega do presente? A gente logo sabe se a pessoa não pensou em nada:
- O meu amigo secreto eu não conheço muito, mas ele parece ser muito legal!
E todo ano é a mesma coisa: o Fulano vai lá e entrega um vale-presente da loja X pro Beltrano. Os dois tiram uma foto juntos e é isso aí. Nenhum dos dois se conhece, mas já são “amigos secretos”.
A gente sabe que é bobo, que algumas vezes não tem nenhuma sinceridade e que em pelo menos 80% dos casos não vamos sair satisfeitos nem com o amigo, nem com o presente. Mas não tem jeito, Natal sem pelo menos um amigo secreto é só comida, especial da Xuxa e Missa do Galo. Ou só comida.
22 de novembro de 2009
A do caso do vestido
Quando Geisy foi escurraçada naquele Carandiru-niban, a defendi de verdade a todos os que achavam que ela tinha merecido. Vieram à minha cabeça aquelas acusações infundadas que fazia-se a mulheres estupradas: "Mas, também, ela provocou, não podia estar vestida daquele jeito..." Li com total compreensão os gringos atônitos, tentando explicar o caso: "Apesar de o Brasil ser conhecido pelas vestimentas escassas, nas cidades em que não há praia as jovens costumam se vestir mais casualmente, com jeans e camiseta". Cheguei a pensar que Geisy era uma espécie de Bettie Page, julgada por conservadores em uma época em que usar pouca roupa era imoral e obsceno, com a diferença de que não estamos mais nessa época e de que sediamos a festa mais nua e obscena do mundo, sem o menor choque.
Por que então o vestido de Geisy foi objeto de tamanho bafafá? Em qualquer balada de São Paulo podemos encontrar pessoas vestidas assim. No Rio, encontramos gente vestida com roupas ainda menores (nem decote o vestido da menina tinha!). Mas, depois da indignação, veio a raiva. Geisy no Casseta e Planeta, Geisy dizendo que leiloará o vestido e, a gota d'água: Geisy posando nua. De vítima, ela passou a palhaça.
Não que eu condene quem posa nua. É uma opção. Uma opção que compra apartamentos luxuosos. O problema é toda a publicidade que se fez em torno disso. Geisy é muito jovem e, aqui entre nós, não é a pessoa com o futuro mais brilhante estudando na Uniban (e deixo bem claro que não quero dizer que quem faz Uniban não tem futuro, mas sim que terá que penar muito mais do quem fez uma faculdade de ponta, e isso é fato). Aproveitar-se de uma situação como a que ela vivenciou, tentando fazer do trauma um caça-níquel, é não só ridículo como tão machista quando as pessoas que a escurraçaram. Antes, ela mostrava o corpo como uma opção de liberdade feminina. Agora, ela mostra para ganhar dinheiro.
É verdade que Geisy ainda não confirmou se vai ou não posar nua. Mas tanto a Playboy quanto a Sexy já declararam que irão procurá-la. É questão de tempo (e dinheiro) até ela aceitar. Enquanto isso, ela fica fora da faculdade, mostrando seu nome nos quatro cantos da TV e da internet.
A dura verdade disso tudo é que, ao invés de mostrar ao país o quanto ainda precisamos progredir em direitos femininos, em educação, e principalmente em respeito ao próximo, ela está usando as mesmas velhas armas de qualquer mulher que começa a receber mais atenção. O que ela não percebeu é que sua vida se transformou em um Big Brother universitário, de um só participante, com o pacote completo pós-saída da casa: Faustão, Paparazzo, Playboy, Programa do Jô, Mais Você, Hebe, Superpop, esquecimento.
16 de novembro de 2009
A da volubilidade
Machado de Assis tratou esse tema fielmente em diversos contos. Em "D. Benedita", por exemplo, descreve uma senhora tão indecisa da vida que não consegue completar nenhum plano, fazer uma única resolução. Não estou dizendo que sejamos todos assim. Mas é bem provável que tenhamos fases da vida com idas e vindas.
O vestibular é a mais vil prova de volubilildade a que um ser humano pode se submeter. Escrever em um papelzinho sua opção de "carreira"? Quando prestei vestibular eu mal sabia o significado dessa palavra, quanto mais se estava certa da minha opção! Conheço várias pessoas que mudaram o número da tal "carreira" da Fuvest na fila de inscrição. Uma verdadeira crueldade essa história de vestibular.
"Mas você está falando de decisões importantes", vocês podem argumentar. As decisões importantes são realmente as mais difíceis, mas não são as únicas formas de exercermos nossa volubilidade. A indecisão passa também pelo prato que pedimos no almoço, pelo corte de cabelo, roupa que iremos vestir e por aí vai. O fato é: não ofereça uma lista muito grande de opções a uma pessoa. Fatalmente ela irá surtar.
Mais exemplos de volubilidade? Twitter. Siga uma pessoa qualquer que costume narrar seu dia inteiro lá. Veja quantas vezes ela ficará em dúvida e mudará de ideia. Sim, porque ser volúvel não é apenas ficar em dúvidas, deixo bem claro. É principalmente mudar de rumo sem muito porque, simplesmente porque quer. No Twitter as pessoas adoram expressar suas idas e vindas.
Porém devo ser justa: sendo todos nós volúveis e não existindo nada nesta vida que seja definitivo, a volubilidade não é assim tão ruim. Muito pior seria ter não ter o direito de mudar de ideia, ou ainda ter tão poucas possibilidades que as escolhas limitadas sequer poderiam gerar dúvidas. Imaginem um cardápio de um prato só, uma universidade de um só curso, roupas únicas, cortes de cabelo padronizados... Que tedioso seria o mundo da involubilidade! Pessoas presas em decisões que não tomaram ou que foram obrigadas a tomar. Uma ditadura sem ditadores. Que seria deste post sem a volubilidade, afinal? Um brinde à volubilidade, meus leitores, um brinde ao motor da vida - mais um assunto chato para este blog.
30 de outubro de 2009
A da música e da poesia - parte 2
Coincidentemente, ontem tive uma aula sobre Simbolismo com a professora Simone Rufinoni, especialista em Cruz e Sousa – talvez a única lá na USP. Em determinado momento da aula, ao falar sobre os recursos utilizados pelos simbolistas – sinestésicos, principalmente -, ela mencionou como exemplo uma estrofe do poema “Violões que Choram...”, do Cruz:
“Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”
Porém, em dado momento da aula, ela utilizou outra palavra que me deu um estalo: musicalidade. A aliteração nessa estrofe sugere, segundo a interpretação mais comum do poema, o som de um violão. Foi quando eu entendi musicalidade e música como conceitos diferentes.
Explico. A música deve ter três elementos básicos: harmonia, melodia e ritmo. A musicalidade seria a utilização de recursos literários que lembrem um desses elementos como apoio para um poema ou outro texto escrito. A lírica usa isso com frequência, e talvez seja por isso que tantos de vocês acharam absurda a minha distinção tão grande entre música e poesia: estamos pensando em conceitos diferentes. Eu vejo a musicalidade como um recurso que a poesia utiliza, mas que não é, nem nunca será, a própria música, pois transpor harmonia e melodia à escrita é impossível – ao contrário do ritmo.
Portanto, no poema de Cruz e Sousa, temos um exemplo do que falei no último post: emulação de sonoridade, que não é harmonia e nem melodia, mas a utilização de um recurso estritamente escrito para criar sonoridade que se destaca foneticamente. Mas não consigo ouvir um violão nessa estrofe. É um nível de abstração muito difícil de ser comprovado objetivamente, por isso muito pessoal.
Sei que existem teóricos que comparam a música com a poesia, mas não os considero referência inquestionável. O próprio professor Luiz Tatit, mencionado em um dos comentários e com quem também tenho aula, analisa semioticamente letras de música ou melodias de canções, mas nunca a música como arte poética. Talvez porque a Semiótica Narrativa não dê conta desse tipo de análise, ou porque esse tipo de análise não tem total rigor comprovado, enfim, é algo passível de maior pesquisa.Até agora falei da relação entre poesia e música. E da música com a poesia? Aqui entra o que falei no último post. O processo de composição de uma música é totalmente diferente da composição da poesia. Isso porque uma letra de música é feita já pensando na melodia, no cantar. A poesia nunca envolve canto. Pode envolver oralidade, como aquela que encontramos em Grande Sertão: Veredas (praticamente uma prosa poética), mas não envolve canto. Portanto apesar dos elementos em comum que já mencionei antes – ritmo, rima e acento – a música se mantém distante da poesia pelo processo de composição e aplicação do ritmo que determina, necessariamente, a melodia e a harmonia, o que não ocorre na poesia, onde o ritmo está separado desses dois elementos.
Resumindo, diria que, de um lado, temos dois pólos separados: poesia e musicalidade X música. A poesia é a base, a musicalidade pode ser o apoio. Não é a música em si, apenas a utilização de uma emulação de elemento musical na escrita. E, do outro lado, temos que a música não contém poesia por abarcar elementos distintos dos que existem na poética, com apenas alguns recursos em comum: rima, ritmo, acento e, em alguns casos, oralidade, porém utilizando a melodia e a harmonia como a “cola” que une esses recursos.Por tudo isso, reitero minha afirmação: música é música, poesia é poesia. Pensar em um pano de fundo que seja comum entre as duas, como a musicalidade e a oralidade, parece-me ser o caminho mais viável. Mas esse pano de fundo não faz com que uma coisa possa ser facilmente transposta para a outra: poesia e música continuam sendo duas artes totalmente diferentes.
26 de outubro de 2009
A da música e da poesia
Eu não consigo entender a relação que as pessoas fazem entre música e poesia. E não é que me falta base teórica: esse semestre mesmo, durante as aulas de Teoria Literária com um especialista em escrita e oralidade, fui obrigada a ouvir, por exemplo, “Navio Negreiro” do Castro Alves na voz do Caetano Veloso com batuques ao fundo. Quem me conhece sabe bem que isso foi um momento bem difícil da minha vida.Em outra aula do curso, o professor, no ápice de suas conclusões, colocou para tocar o canto do sabiá laranjeira, contando em seguida as sílabas e acentos. “O sabiá canta em redondilha maior!”, exclamou empolgado. Ele tinha acabado de nos mostrar que a "Canção do Exílio" também foi feita em redondilha maior e estava quase com uma lágrima escorrendo pelos olhos, já pensando nas relações que sua descoberta poderia ter com aquelas aves que aqui gorjeiam e não gorjeiam como lá. Eu (junto com toda a turma) não consegui segurar a risada.
O que me parece é que a gente vê música em qualquer poesia que quer ver. E pode ver poesia em música também, mas isso não quer dizer que as duas coisas estejam conectadas. Dizer que alguma coisa é poética, em geral, faz com que a coisa assuma um valor maior do que tem. E para isso cito o exemplo do Chico Buarque: quantas pessoas nesse país não o clamam como o maior poeta brasileiro?
Sem entrar nos méritos da questão, posso dizer seguramente que isso está errado. Tudo bem ficar em dúvida entre Bandeira e Drummond, Bilac e Cruz de Souza (ok, riscarei esses dois últimos), mas Chico não deveria entrar na lista. Ele é um compositor, escreve músicas (e aqui eu mais uma vez me esforço para ser bastante imparcial), e tenho certeza que jamais pensou em publicá-las em um livro. Afinal, ele tem livros publicados, quase todos eles em prosa. Também sem entrar nos pormenores da qualidade desses livros.
Música e poesia têm suas semelhanças, é verdade: os versos, as rimas e o sentimento que abarcam quando lidas ou ouvidas. Mas o propósito com que foram escritas anula qualquer possibilidade de classificá-las de outra maneira. Eu leio poesia e posso até aceitar alguém que a declame, mas música eu canto ou berro, escuto alta nos fones de ouvido ou toco a palhetadas rápidas na minha guitarra. Não consigo imaginar toda essa possibilidade de agressividade sonora na poesia, apenas uma emulação de agressividade que alguns fonemas podem assumir. O que jamais chegará a ser, de fato, um ritmo ou uma nota musical.
No final, algumas coisas ficam bem mais claras: um discurso poético pode ter características de discursos orais. Mas o musical vai bem além da possibilidade de oralidade. O musical é a união do que é interno com o que é externo, enquanto a poesia é a interioridade pura, com toques de exterioridade que não chegam a ser musicais a não ser que você construa, na sua interioridade, uma musicalidade própria da poesia escrita.
Mas esse post ficou filosófico demais. Vamos quebrar o gelo de vez: odeio MPB. Adoro poesia brasileira. Colocar as duas coisas assim, juntas em uma só pessoa, já é suficiente para comprovar minha teoria: música é música, poesia é poesia.
5 de outubro de 2009
A da soja com bacon
- Oi, eu queria um Vegetariano, por favor.
- Vegetariano? Ok. Nós temos alguns complementos que você pode adicionar. Vc pode colocar bacon!!!
- Não, não, obrigada. Sou vegetariana.
- Aaah, vc é vegetariana mesmo? De verdade? Nossa, mas você não come nenhum tipo de carne???
- Não.
- Nem frango???
- Não, nem peixe - disse eu, já adiantando a resposta da próxima pergunta.
- Nossa, mas há quanto tempo???
- 5 anos.
- Nossa, 5 anos??? Que coisa!! Mas você emagreceu quando parou de comer carne??? - Não... [E o que foi essa pergunta? Por acaso estou magra demais?]
- Nossa, 5 anos... mas, assim, por que? O que te levou a parar???
- Não gosto de carne – imaginando que a explicação completa traria muito mais problema.
- Sério?? Nossa, eu não conseguiria... mas te admiro, viu!!! Nossa, mas não consigo entender, como assim vc parou? Por queee???
- É filosofia – respondi, pensando que não havia mais jeito de tentar encurtar aquela conversa.
- Mas como assim???
- Não concordo com a exploração de animais para nosso benefício.
- Aaah, então vc é igual os indianos???
- Não, eles comem frango. Eu não como nenhum tipo de carne.
- Ah, entendiii... Ai, eu também não gosto de ver bicho sofrer não, viu? Se eu ver matar eu não como.
- ...
- Nossa, que coisa, viu!! Muito legal!! Olha, tá aqui sua notinha. Só aguardar.
Fui meio transtornada para a mesa, com a senha na mão, pensando o que raios tinha sido aquele diálogo. Eu já tinha ouvido muita coisa nos últimos 5 anos. Já até me perguntaram se eu não sentia mais sono porque não como carne. “É, eu tenho uma impressão de que vegetarianos sentem mais sono...”, disse a pessoa. Mas nunca ninguém tinha me oferecido bacon com um hambúrguer vegetariano. Já tinham me perguntado qual era o ponto da “carne”, mas nunca se eu queria um pedaço de porco em cima do hambúrguer de soja.
Eu nunca, também, tinha me sentido tão ET por ser vegetariana. Eles (a mulher do caixa e o cara do lado) me olharam como se eu fosse uma hippie maluca, igual àquela mulher do filme About a Boy. Eu estava passada.
Porém, quando minha senha foi anunciada no painel, o desfecho da conversa foi ainda mais bizarro. Fui pegar minha bandeja rápido, para não dar chances a outros comentários, mas foi inútil:
- Moça, você tem Orkut?
E agora? Quem não tem Orkut nessa vida? Tive que pensar rápido. E a raiva pela conversa anterior parece que tinha me dado esse poder.
- Tenho sim. Me procura lá: Fernanda Rodrigues.
- Fernanda Rodrigues?
- Isso mesmo.
- Tá bom, vou te adicionar!!
Saí com a bandeja na mão dando gargalhadas por dentro. Existem pelo menos umas 3 mil Fernandas Rodrigues no Orkut, e nenhuma delas sou eu, porque meu nome não está assim lá.
E me senti vingada. Não, eu não iria contar minha história de vida vegetariana para a gorda do caixa via scrapbook e não iria deixá-la ver minhas fotos como se eu fosse uma amiga íntima, quando na verdade era apenas alguém que ela via com cara de brócolis. Eu queria fazer um longo discurso sobre o vegetarianismo, dizer que não é maluquice, capricho, muito menos a solução para perder peso. Ao invés disso, contei uma mentirinha. E nunca tinha comido um hambúrguer tão saboroso quanto aquele.
28 de setembro de 2009
A da inveja - mas inveja boa, tá?
Já dizia Platão, em seu livro A República, que existem duas formas diferentes de cobiçar objetos ou qualidades alheias: a inveja e a emulação.Inveja todos nós sabemos muito bem o que é. Um sujeito cobiça o que ele não pode ter e torce para que o cobiçado afunde na lama, perca tudo o que tem, se torne um desgraçado. Resumindo, funciona mais ou menos assim: comprou uma BMW? Vai bater na primeira volta. Tem um marido bonito? Ele vai te trair, pode ter certeza. Está ganhando um bom salário? Não se preocupe, a demissão vem em seguida. E tudo por causa daquela vizinha gorda que não tira o olho grande de sua bem-sucedida vida.
Emulação é diferente. É muito mais admiração do que maldade. É basicamente uma forma de seguir uma pessoa (dando “follow” ou não), tendo-a como um mestre, um exemplo. Você pode emular um escritor, um músico, um amigo, seus pais ou, para os mais workaholics, seu chefe. Mas você não deseja o mal; ao contrário. Quer que seu emulado seja cada vez mais bonito e inteligente para que você possa, quem sabe, um dia, ser como ele.
Mas e a famosa “inveja boa”, onde entra? Não é contemporânea de Platão, mas é muito mais citada do que ele em nossos dias.
- Ai, meniiiina, que sapato lin-doooo! Deu até inveja!! Mas é inveja boa, viu?
A resposta é simples: “inveja boa” é um eufemismo para a inveja velha e pura. Você quer o sapato, acha que o merece mais do que a outra sirigaita. Aceite, você é uma invejosa e nada vai mudar esse fato.
Mesmo que você tente dizer que sua inveja é boa, por mais flexível que essa língua de Camões possa ser, essa acepção não existe. E o Aurélio, tadinho, não colocou essa definição em suas páginas e nem vai colocar. Quevedo repetiria: “ISTO NO EQUISISTE”.
Portanto, vá tratando de tirar “inveja boa” de seu léxico e de trabalhar um pouco para ter um sapato bonito também antes que, de tão invejosa, você seja a perfeita emulação da vizinha gorda.
21 de setembro de 2009
A do fantástico mundo das redes sociais
Uso o exemplo da aparência apenas para entrar em questões um pouco mais profundas. Não digo aqui que redes sociais não sejam úteis. É muito legal encontrar no Orkut, Facebook e companhia uma pessoa que você já não vê faz tempo. Mas o que acontece normalmente é a clássica troca de recados:
- Nossa, Fulano, quanto tempo!! E aí, tá fazendo o q?
- Verdade, muito tempo mesmo! Tô trabalhando, estudando... Vamos marcar alguma coisa, hein!
E fim. Provavelmente isso se repetirá no dia do aniversário de um dos dois ad infinitum, ou até que um deles se toque de que esse chove no molhado não levará a nenhum resgate de amizade. Há exceções, é verdade. E apenas nesses casos é que se encaixa a utilidade das redes sociais.
De resto, o que existe é o exibicionismo das fotos, as brigas entre namorados (um termina com o outro e 10 minutos depois somem todas as fotos do casal, o status muda milagrosamente para "single" e um daqueles textos-padrão "Carpe diem" é colocado no perfil), os xavecos frustrados de quem acredita piamente que seja possível começar um relacionamento pela Web - ou de quem está usando isso tudo como última esperança.
No caso do Orkut, salvam-se poucas comunidades onde alguém tenta, em vão, discutir alguma coisa com seriedade. Mas a maioria delas virou, também, um exibicionismo de seus gostos e vontades e um depósito interminável de spam. E no caso do Facebook, só para citar mais um exemplo, não há muita coisa a mais do que fotos, testes e alguns recados. Até porque a proposta não é ir muito além disso mesmo.
O grande problema das redes sociais é quando elas se tornam, como citei no início, a máscara. Sua identidade, sua expressão, suas vontades estão lá. Você, offline, é totalmente diferente. Vira um zumbizinho sem graça que não consegue fazer nada sem antes consultar os seguidores do Twitter. Que prefere falar tudo virtualmente a falar em pessoa, porque a voz democrática da internet é muito mais alta do que a sua voz verdadeira. Alguém que tira uma foto e já está colocando no Orkut; que persegue fielmente a lista de sugestões de amigos do Facebook. E que corta o cabelo e trata logo de atualizar o perfil de todas as redes sociais para mostrar o novo look pra todo mundo. Você fica, enfim, submerso nessa massa amorfa e vazia, e se torna mesmo muito mais interessante quando está online.
É claro que não cabe aqui julgar as aparências - essa primeira impressão apenas se revela curiosa. O conteúdo é que é a questão. Não há nada demais em manter perfis em redes sociais - quem não mantém? O problema, como tudo nessa vida, é o fanatismo. É não ter um centavo no bolso mas economizar pra gastar na lan house, antes que a crise de abstinência tome conta do pobre ser. É não ler um livro sequer, mas ler todos os recados, perfis, álbuns, testes, twitts...
O problema é quando o supérfluo se torna essencial e o essencial se torna supérfluo. O problema é, enfim, quando a rotina milagrosa de sua existência se resume a um frenesi atômico de futilidades. Essa, meu amigo, é a hora exata de desconectar.
16 de setembro de 2009
A da sátira
Explico: a sátira tenta fazer com que nos conformemos com uma situação, embora tenhamos consciência de que ela está errada, fora de lugar. Ou você já viu uma sátira chamando o povo pra revolução? É sempre "o Sarney rouba nosso dinheiro. E nem percebemos", acompanhada de uma ilustração irônica, como um Sarney de máscara de ladrão atacando sua bolsa enquanto você conversa com alguém. Mas não é "o Sarney rouba nosso dinheiro, vamos derrubá-lo e instaurar a ditadura do proletariado para tirar o poder dos bolcheviques e dar todo o poder aos trabalhadores do Brasil."
Isso é triste, porque uma vez que você ri de uma sátira qualquer está ali sujeito a balançar a cabeça e seguir em frente. A sátira não espera outra coisa de você. E você também não espera nada mais dela. Sabe que ela é tão útil quanto os Trending Topics do Twitter: eles estão ali em evidência agora, mas daqui a 5 minutos todo mundo já esqueceu de tudo.
A sátira nos engana porque achamos que ela é um movimento de vanguarda, de contestação. Mas não é! Está ali pra tentar mostrar que não há nada que se possa fazer contra aquilo que ela teoricamente está contestando, e que você é simplesmente uma massa de manobra burra acreditando na liberdade que o sujeito satírico possui, dando risada de uma realidade que não vai mudar. A sátira é o fruto proibido que Eva comeu, todo mundo sabe, todo mundo acha graça e ele continua sendo fruto, continua sendo proibido. Não importa se ela vai comer de novo, e de novo, e de novo...
Pense na sátira como uma diversão aleatória que o destino quis colocar na sua vida. E, para o seu bem, pense nela como uma teoria bem trabalhada que pode salvar seu dia. E balance a cabeça concordando como se nada estivesse acontecendo, porque o satírico, de verdade, está aí: vai, humano bobo, dá risada da sua própria desgraça.
3 de setembro de 2009
A da felicidade brasileira
O site da revista Forbes fez um ranking das cidades mais felizes do mundo. Adivinha quem ficou em primeiro lugar? Rio de Janeiro. Por mais que isso possa parecer piada de mal gosto para os paulistas, a cidade carioca encabeçou a lista na frente de Sidney, Barcelona, Amsterdã, Melbourne, entre outras.
A pesquisa utilizou, como justificativa para a liderança, a imagem de felicidade passada pelo Carnaval, que revela bom humor e "boa vida". Usou também a imagem de jovens dançando alegremente e, como ilustração para o resultado, uma foto do jogador Adriano. Enfim, uma consolidação de todos os elementos mais brasileiros que existem: Carnaval, Mulher e Futebol.
O quão bom isso é para a imagem do Brasil lá fora? Vender que além de termos belezas naturais somos um povo alegre, com boas energias e receptivos é crucial para o nosso turismo, é verdade. Mas a dura realidade é que esse tipo de "constatação" só continua disseminando o que, ao meu ver, nos caracteriza com um povo sem nenhuma seriedade.
Isso é bem perceptível quando você ouve os comentários de gringos sobre nosso país. "Oh, Brazil, beaches, Carnival, Rio, Ronaldo..." E quando você diz que mora em "Sao Paulo" eles dizem que nunca ouviram falar. Aí você explica que a cidade é o coração econômico da América Latina, tem 11 milhões de habitantes e é tão agitada quanto Nova York e eles fazem cara de total surpresa: o país do povo pelado anda de terno também?
Cultivar a imagem da beleza e alegria não nos faz mais capazes de resolver nossos problemas sociais e econômicos. Ao contrário, nos traz outros problemas - turismo sexual, por exemplo. Faz com que o nosso país seja eternamente atrelado a coisas que não engrandecem a ninguém. Que gringo vem ao Brasil para visitar um de nossos museus ou conhecer um pouco da nossa curiosa história?
Ao invés de mostrar que não somos um bando de índios que nasceram para sambar e jogar futebol, reafirmamos tudo isso de sorriso no rosto e biquíni fio dental. E quem, assim como eu, não concordar com a tríade Carnaval-Mulher-Futebol como símbolos da nossa nação, é obrigado a tentar, todos os dias, ser menos brasileiro.
26 de agosto de 2009
A do Dia Internacional da Igualdade Feminina
Vi agora há pouco um comercial do O Boticário bem interessante. Não encontrei no YouTube, mas é mais ou menos assim: